sexta-feira, 5 de maio de 2017

Os Banidos da Vida

Um pequeno panfleto que fiz, chamado "Banidos da Vida", em que falo um pouco sobre o que chamam "complexo de vira-latas":

Os Banidos da Vida

domingo, 15 de janeiro de 2017

A última fronteira do panafricanismo

    O panafricanismo foi uma ideologia criada no século XIX e XX, e grandes figuras pretas contribuíram para seu desenvolvimento, como W.E.B. DuBois e Marcus Garvey. Um dos objetivos era a libertação física de África do domínio colonial europeu (Nessa época, todo o continente estava submetido às potências europeias, exceto Libéria e Etiópia). Nos anos 60 e 0, o mundo testemunhou a erosão do antigo colonialismo, derrotado povos nativos africanos, seja pela viação da negociação pacífica, como Gâmbia, seja pela força das armas, como no caso das colônias portuguesas. Entretanto, engana-se quem pensa que este objetivo foi concluído nessa época. Há muitas partes de África que ainda sofrem opressão física da Europa. Pior que isso: sua população nem sequer vive mais em sua terra natal, porque foram todos deportados à força de lá. Refiro-me ao exílio forçado dos habitantes das ilhas Chagos, no Oceano índico, conhecidos como chagossianos. 
    Já ouviu falar sobre eles? eu também não, sempre pensei que fosse um arquipélago desabitado no meio do oceano. Mas, sempre que eu via aqueles pontinhos no mapa-múndi, que era minha maior diversão quando criança, eu estranhava que, de todas os arquipéĺagos daquele local da terra, o único que parecia desabitado era ele. Como se eu já pressentisse que havia qualquer coisa mal-explicada ali. Bom, então vamos aos fatos:
    Em 1793, a ilha de Diego García, uma das ilhas principais do arquipélago, começou a ser povoado por colonizadores franceses e, como todo bom colonizador, compraram africanos sequestrados de Moçambique, Madagascar, Maurício e outros países africanos como escravos, para fazerem todo o trabalho por eles. Após 1814, o arquipélago foi cedido ao Reino Unido. Após o fim da escravidão, estes escravos tornaram-se livres, e continuaram a habitar o arquipélago desde então.
    Então, em 1966, o governo britânico assinou um acordo com os E.U.A., permitindo a ele o uso destas ilhas como base militar, no contexto da famigerada Guerra Fria,. Como parte do acordo, o governo britânico se responsabilizou pela expulsão dos "tarzans", como Denis Greenhill, barão wright de Richmond, referiu-se aos nativos. E assim o fez, através de extremo terrorismo e pressão psicológica sobre os habitantes para que saíssem por todos os meios (método utilizado ainda hoje, por exemplo, sobre os habitantes da ilha de Fernando de Noronha, que sofrem continua pressão do governo brasileiro para saírem do arquipélago). Isso incluia a matança de todos os cães e gatos das ilhas e o desabastecimento premeditado de todas as lojas de comida da ilha, e ameaças de morte. Por fim, todos os chagossianos acabaram sendo deportados definitivamente das ilhas, deixando-as desabitadas. Alguns foram para as ilhas Maurício, outros para as Seycheles, hoje países independentes, onde vivem como cidadãos de segunda classe.
    Entretanto, os chagossianos, mesmo diante de tal situação, nunca desistiram, e continuam ainda hoje a reclamar o direito de retorno à sua terra natal. Esta resistência obteve alguns frutos: em 2006, o governo britânico permitiu uma visita de cerca de 100 chagossianos para a ilha, pela primeira vez em 30 anos. Ele também teve que enfrentar uma batalha legal contra os chagossianos, tendo respectivas derrotas, até 2010, quando o governo britânico, em uma manobra para impedir o retorno dos chagossianos, de acordo com documentos revelados pelo Wikileaks, transformou o arquipélago em área de proteção ambiental. Então, em 2013, a justiça reverteu a decisão anteriormente favorável aos chagossianos, alegando que esta manobra era concorde com as leis comunitárias da União Europeia. O golpe final veio em 2016, quando o Foreign Office, espécie de secretaria para assuntos estrangeiros, negou o direito de retorno aos chagossianos, muitos dos quais já velhos e morrendo, negando-lhes o último desejo de ver novamente sua terra natal. 
     Como se vê, o panafricanismo não perdeu seu sentido de ser nos anos 60 e 70, décadas em que a maioria dos países africanos conquistaram suas independências. A luta pelo fim da opressão colonial europeia em África ainda está viva, especialmente nas mentes dos deportados e seus descendentes ao redor do mundo que, assim como nós, pretos da América, desejam ter o direto de rever a terra de seus ancestrais livre de todo e qualquer domínio colonial e racista europeu.

               https://en.wikipedia.org/wiki/Chagossians
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O ANTICRISTO DE NIETZSCHE 

      O livro "O Anticristo" de Friedrich Nietzsche é um daqueles livros que, mesmo após 100 anos de sua publicação, continua tendo poder para abalar o mundo, especialmente o ocidental, intacto como naquele tempo em que foi escrito. Os cristãos invariavelmente começam a ter ataques de nervos à simples menção do nome de seu autor, provavelmente o ser vivo mais odiado por eles em todos os tempos. Mas tudo isso tem sua razão de ser: de fato, "O Anticristo" é um dos poucos livros, senão talvez o único, que põe a nu e descoberto todo o sagrado edifício de mentiras na qual as religiões de forma geral, e particularmente o cristianismo, foram erguidas. Mas, antes de falar sobre o livro, é preciso esclarecer uma coisa: qual foi a tradução que você leu? eu li a da editora escala e, se for o seu caso, a introdução do tradutor deve ser ignorada, porque é de uma carolice revoltante, de alguém que escreveu movido sob a influência de seus sentimentos religiosos "ultrajados" (está em parêntesis porque logo darei um sentido a esta palavra), isto é, de alguém pouco profissional incapaz de separar seus sentimentos pessoais com estudos filosóficos.
      Disse a filósofa Scarlet Marton, a maior especialista em Nietzsche no Brasil, no programa "A Hora da Coruja", dirigido pelo filósofo Paulo Ghiraldelli (https://www.youtube.com/watch?v=V8SvTlEAUuY), que não é possível de facto saber se Nietzsche era mesmo ateu ou não. E quem leu este livro realmente fica com esta impressão: ele chega mesmo a contar Jesus como um "espírito livre", isto é, como muito próximo dos "aristocratas", dos "fortes" ("Usando de certa tolerância no uso das palavras, se poderia chamar Jesus um ''espírito livre'", p. 64). Por isso mesmo, e aqui está a origem do ódio implacável movido pelos cristãos a ele, ele faz questão de traçar uma linha contrastante entre Jesus e seus discípulos, isto é, os cristãos, tudo que veio depois dele e se apropriou, ou melhor, destruiu seu "legado". Para Nietzsche, Jesus nunca quis fundar religião alguma, ter pretensões políticas, salvar o mundo ou qualquer coisa remotamente parecida com isso. O que ele realmente fez foi VIVER COM OUTRO AGIR, diferente do agir judaico até então predominante, isto é, "não tinha mais necessidade de fórmulas, de rito para suas relações com Deus, nem sequer da oração....[...] não é uma "fé" que distingue o cristão: o cristão age, ele se distingue por outro agir" (p. 65). É nesse sentido que se deve compreender mais na frente a famosa frase de Nietzsche: "No fundo existiu um só cristão, e ele morreu na cruz" (p. 74). Jesus foi a única pessoa que, de fato, viveu com este agir "cristão", uma outra forma de fazer as coisas: "por exemplo, não oferece resistência àquele que é mau para com ele, nem em palavras nem em seu coração" (p.65), isto é, precisamente o oposto das práticas correntes daquele tempo. O agir de Jesus não era algo exterior, era sobretudo interior, uma atitude interior, e por isso Nietzsche tem em grande conta este personagem, pois, diferente dos cristãos, seres fracos e débeis, ele não agia assim forçado por um poder sobrenatural coator que o castigaria caso fizesse diferente, mas por livre e espontânea vontade, e esta é a grande diferença entre um forte e um fraco.
Mas tudo mudou com a morte de Jesus na cruz: o sentimento de desalento e ofensa que seus "discípulos" experimentaram, a suspeita de que essa morte poderia constituir a refutação de sua causa (p. 76) fizeram com que os discípulos procurassem uma causa para este acontecimento. E a causa, o inimigo identificado só poderia ser o judaísmo, e Jesus daí em diante foi entendido como um rebelde contra a ordem. É a partir daqui que a coisa degringolou. "O Deus único e o FIlho único de Deus: ambos produtos do ressentimento" (p. 77). Doravante, a morte de Jesus passaria a ser entendia como um sacrifício humano expiatório. E mais tarde, com o surgimento do rabino Paulo, foi finalmente inaugurada a igreja cristã tal como é hoje, um ajuntamento de ressentidos, negadores da vida e fracotes incapazes de qualquer coisa em virtude de maltratarem a própria vida em seus corpos e mentes toruturados psicológica e fisicamente.
      Basicamente, este é o conteúdo de "O Anticristo". Compreende-se o suor frio saído das hostes cristãs contra Nietzsche, aquele que dilacerou completamente todas as mentiras teológicas feitas durante 2000 anos para justificar o extermínio da vida em toda parte por onde o cristianismo chegou e se consolidou.. E, de fato, não é preciso ir muito longe para verificar isto, basta lembrar como as culturas africanas e indigenas de nossos antepassados americanos, que possuíam uma moral muito mais afirmadora da vida do que a cristã. foram duramente reprimidas durante mais de 500 anos e até os dias atuais continuam assim. Entretanto, é bom lembrar que o cristianismo criticado por Nietzsche era o de seu tempo, isto é, um cristianismo extremamente moralista e repressor, comtemporâneo da era vitoriana. Hoje, no século XXI em que vivemos, o cristianismo está bastante diferente deste cristianismo de um século atrás, pois foi forçado pelo que os teólogos erroneamente chamam de "modernismo" (por esse nome entendem todas as filosofias modernas, desde o liberalismo até o comunismo, como se todas fossem iguais para serem metidas no mesmo balaio de gato, atitude típica de fanáticos religiosos...) a deixarem para trás pelo menos seus aspectos mais sombrios. Um exemplo que me vem à mente dessa mudança da igreja é a teologia da libertação, que rompeu em grande medida com a tradicional aliança entre igreja e classe dominante, se aproximando muito mais dos pobres do que a igreja católica jamais sonhou em sua vida. A igreja anglicana inglesa há tempos permite a ordenação de mulheres ou mesmo o casamento homossexual em algumas vertentes, a renovação carismática, na igreja católica, e o neopentecostalismo, nas igreja evangélicas, praticamente desprovidas de qualquer apelo moral mais sério pois privilegiam antes de mais nada o aspecto material da vida, como bens materiais para seus fieis (muito nietzscheano, por sinal), entre outros exemplos. Entretanto, mesmo com esse "desaperto de cinto" da rígida moral cristã, elaborada durante milênios para matar qualquer indício de vida, não podemos nos enganar: ela continua extremamente repressora da vida, especialmente na maior igreja cristã da atualidade, a igreja católica, que ainda se apoia em argumentos patéticos para reprimir o mais possível o sexo, por exemplo. Nunca devemos esquecer disso, e precisamente por isso é que Nietzsche continua tão atual no mundo de hoje, e também tão odiado pelo fanatismo religioso cristão, e ainda viverá durante muito, muito tempo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

"Desde os primórdios, a concepção europeia do novo continente teve duas facetas, completamente opostas: por um lado, a terra era vista quase sempre como um éden; por outro, o homem aparecia demonizado. " Aqui está a origem do ufanismo e patriotismo fajuto de nossa elite, sempre a exaltar as belezas naturais do país (Brasil, ame-o ou deixe-o, ninguém segura esse país, Deus é brasileiro, terra abençoada por Deus...), ao mesmo tempo que despreza e odeia a população desse mesmo país por ser descendente de "bárbaros" indígenas e negros (Esse país não tem jeito, eita povinho ruim, é só aqui que esse tipo de coisa acontece, o que estraga o Brasil é esse povinho que mora aqui...)

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/um_paraiso_chamado_brasil.html
Um pouco da história da Estrutural, aquela do filme "meu amigo Nietzsche":

"Na época, o cenário era semelhante ao de um campo de concentração nazista, como lembra o advogado. A cidade foi cercada. Ninguém entrava ou saía livremente. Não havia água, luz, telefone, gás.
A alimentação era restrita, inclusive, o leite das crianças, como conta um morador. As pessoas não podiam levar móveis ou utensílios de casa, além de serem presas em jaulas. À noite, pedidos de socorro, gritos e tiros eram a trilha sonora."

http://site.jornalregional.com.br/index2.php?option=noticia&value=5320
É o que descobri cerca de 3 meses atrás, depois de passar uma vida inteira enganado pelo eurocentrismo e racismo. Pouco sei ainda, mas já é o suficiente, diante de uma sociedade tão racista como a nossa, para ser enquadrado na lei de segurança nacional da ditadura, que ainda vigora intacta no país.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/11/descendentes-precisam-saber-que-historia-da-africa-e-tao-bonita-quanto-a-da-grecia.html
"Art. 16 - Integrar ou manter associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado de Direito, por meios violentos ou com o emprego de grave ameaça.
Pena: reclusão, de 1 a 5 anos.
Art. 17 - Tentar mudar, com emprego de violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito.
Pena: reclusão, de 3 a 15 anos.
Parágrafo único.- Se do fato resulta lesão corporal grave, a pena aumenta-se até a metade; se resulta morte, aumenta-se até o dobro. [...]
Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
II - de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa;
III - de guerra;
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
§ 1º - A pena é aumentada de um terço quando a propaganda for feita em local de trabalho ou por meio de rádio ou televisão.
§ 2º - Sujeita-se à mesma pena quem distribui ou redistribui:
a) fundos destinados a realizar a propaganda de que trata este artigo;
b) ostensiva ou clandestinamente boletins ou panfletos contendo a mesma propaganda."

Lei de segurança nacional.

A pergunta que não quer calar: Por que é que ainda não prenderam o pessoal acampado no congresso, do mídia sem máscara, o revoltados online, o Lobão, o Bolsonaro, seus filhos, o Olavo de Carvalho, o padre Paulo Ricardo e a restante escumalha que violam cotidianamente esta lei ao defender um golpe militar e o derrube do estado de direito, lei está que ainda está em vigor, ironicamente aprovada por eles mesmo em 83? Para bom entendedor, meia palavra basta.
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