sábado, 26 de julho de 2014

O Califado Evangélico

     Deu na TV um dia desses que o chefe da Igreja Universal, Edir Macedo, está prestes a construir uma réplica "bíblica" do templo de Salomão, aquele famoso templo mencionado no livro primeiro de Reis. Também passou outra notícia, dessa vez no Oriente Médio, de que um grupo terrorista denominado Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) tomou partes do território da Síria e do Iraque, mudou seu nome para Estado Islâmico e seu líder, Abu Bakr Al-Bagdhadi, declarou-se "califa".
     O que é um "califa"? é um título honorífico do mundo muçulmano, conferido ao governante de um estado islâmico regido pela Sharia, a lei islâmica. Ele deve ser descendente do profeta Maomé, para os xiitas, ou legítimo sucessor, fosse parente ou não, para os sunitas. Em outras, palavras, califa seria, grosso modo, o que o imperador do sacro império romano-germânico foi no ocidente, isto é, o representante de Deus na Terra para governar o Estado, o mundo secular. Se ele é o representante de Alá na terra, então todos os muçulmanos, por suposto, tẽm o dever de obedecê-lo, daí porque ele exigiu que todos os islâmicos fossem jurar obediência a ele. O último califa reconhecido pela generalidade do mundo islâmico foi o califa Abdul Mejid II, o último sultão do Império Otomano, hoje república da Turquia.
      Ora, e o que têm a ver Edir Macedo com isto tudo? simples. Há um gigantesco simbolismo nesse templo evangélico. O templo de Salomão era considerado o lugar mais sagrado do judaísmo, e o rei que o construiu, Salomão, passou à história como o modelo de rei ideal, o mais importante de todos os reis israelitas, o messias (do hebraico moshiach, significando "ungido", assim era aplicada originalmente esta palavra, como um título real). Reconstruindo o templo de Salomão, a mensagem de Edir Macedo é clara: doravente, todo o simbolismo do templo de Salomão foi restaurado. Assim como o antigo templo, o novo deve ser e será o principal templo cristão de todo o Brasil (ele é 4 vezes maior que a basílica de Aparecida). Assim como Salomão, o novo Salomão, aquele que é o ungido do Senhor, o mais sábio entre os homens, também ressurgiu, e atende pelo nome de Edir Macedo. Não há modéstia aqui: Este templo simboliza a reivindicação cabal da liderança sobre todo o mundo evangélico, quiçá sobre todo o mundo cristão no país. Portanto, da mesma forma que ao califa Al-Bagdhadi, é exigida obediência incondicional ao novo Salomão por parte de todos os evangélicos, da mesma forma que todo Israel devia curvar-se às ordens do rei dos reis, único e legítimo representante de Deus na terra, aquele que é apto a guiar o novo Israel, assim como o califa, diretamente escolhido por Deus para reinar e trazer o reino de Deus. E, assim como Al-Bagdhadi, está iniciado um novo califado, uma nova era no meio religioso evangélico. Aquela barba é um sinal disso: ele disse que era um voto em favor da construção do templo, mas é inegável que é uma tentativa de capturar esta imagem de Salomão, o personagem o qual todos lembram imediatamente de um senhor velho e barbudo, como todos os profetas do antigo testamento. É um grande teatro, na verdade.
     Ambos os dois, o califado islâmico e o retorno do monarca ungido pelo Senhor com seu templo, marcam um ponto de viragem. Com efeito, ambos os acontecimentos são o símbolo da ingerência cada vez maior da religião na política, no oriente com o fundamentalismo islâmico, e no ocidente com o fundamentalismo cristão. Onde isto vai nos levar? não há como saber. Mas atenção: é o tipo de acontecimento sem muita repercussão na hora hodierna, mas histórico no futuro. Então, gravem bem na memória, será muito útil para entendermos nosso futuro, seja ele sombrio ou luminoso.

Eduardo Viveiros

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Claire Parnet: E o respeito aos Direitos Humanos que está tão em voga hoje em dia? É o contrário do devir revolucionário, não?
Gilles Deleuze: A respeito dos Direitos Humanos, tenho vontade de dizer um monte de coisas feias. Isso tudo faz parte deste pensamento molenga daquele período pobre de que falamos. É puramente abstrato. O que quer dizer “Direitos Humanos”? É totalmente vazio. É exatamente o que estava tentando dizer há pouco sobre o desejo. O desejo não consiste em erguer um objeto e dizer: “Eu desejo isto”. Não se deseja a liberdade. Isso não tem valor algum. Existem determinadas situações como, por exemplo, a da Armênia. É um exemplo bem diferente. Qual é a situação por lá? Corrijam-me se estiver errado, mas não mudará muita coisa. Há este enclave em outra república soviética, este enclave armênio. Uma República Armênia. Esta é a situação. Primeira coisa. Há o massacre. Aqueles turcos ou sei lá o quê…
Claire Parnet: Os Azeris.
Gilles Deleuze: Pelo que se sabe atualmente, suponho que seja isso: o massacre dos armênios mais uma vez no enclave. Os armênios se refugiam em sua República. Corrija-me se estiver errado. E aí, ocorre um terremoto. Parece uma história do Marquês de Sade. Esses pobres homens passaram pelas piores provas, vindas dos próprios homens e, mal chegam a um local protegido, é a vez da natureza entrar em ação. E aí, vêm me falar de Direitos Humanos. É conversa para intelectuais odiosos, intelectuais sem idéia. Notem que essas Declarações dos Direitos Humanos não são feitas pelas pessoas diretamente envolvidas: as sociedades e comunidades armênias. Pois para elas não se trata de um problema de Direitos Humanos. Qual é o problema? Eis um caso de agenciamento. O desejo se faz sempre através de um agenciamento. O que se pode fazer para eliminar este enclave ou para que se possa viver neste enclave? É uma questão de território. Não tem nada a ver com Direitos Humanos, e sim com organização de território. Suponho que Gorbatchev tente safar-se desta situação. Como ele vai fazer para que este enclave armênio não seja entregue aos turcos que o cercam? Não é uma questão de Direitos Humanos, nem de justiça, e sim de jurisprudência. Todas as abominações que o homem sofreu são casos e não desmentidos de direitos abstratos. São casos abomináveis. Pode haver casos que se assemelhem, mas é uma questão de jurisprudência. O problema armênio é um problema típico de jurisprudência extraordinariamente complexo. O que fazer para salvar os armênios e para que eles próprios se salvem desta situação louca em que, ainda por cima, ocorre um terremoto? Terremoto este que também tem seus motivos: construções precárias, feitas de forma incorreta. Todos são casos de jurisprudência. Agir pela liberdade e tornar-se revolucionário é operar na área da jurisprudência! A justiça não existe! Direitos Humanos não existem! O que importa é a jurisprudência. Esta é a invenção do Direito. Aqueles que se contentam em lembrar e recitar os Direitos Humanos são uns débeis mentais! Trata-se de criar, não de se fazer aplicar os Direitos Humanos. Trata-se de inventar as jurisprudências em que, para cada caso, tal coisa não será mais possível. É muito diferente. Vou dar um exemplo de que gosto muito, pois é o único meio de fazer com que se entenda o que é a jurisprudência. As pessoas não entendem nada! Nem todas… Eu me lembro da época em que foi proibido fumar nos táxis. Antes, se fumava nos táxis. Até que foi proibido. Os primeiros motoristas de táxi que proibiram que se fumasse no carro causaram um escândalo, pois havia motoristas fumantes. Eles reclamaram. E um advogado… Eu sempre fui um apaixonado pela jurisprudência. Se não tivesse feito Filosofia, teria feito Direito. Mas não Direitos Humanos. Teria feito jurisprudência, porque é a vida! Não há Direitos Humanos, há direitos da vida. Muitas vezes, a vida se vê caso a caso. Mas eu estava falando dos táxis. Um sujeito não queria ser proibido de fumar em um táxi e processa os táxis. Eu me lembro bem, pois li os considerandos do julgamento. O táxi foi condenado. Hoje em dia, nem pensar! Diante do mesmo processo, o cara é que seria condenado. Mas, no início, o táxi foi condenado sob o seguinte considerando: quando alguém pega um táxi, ele se torna locatário. O usuário do táxi é comparado a um locatário que tem o direito de fumar em sua casa, direito de uso e abuso. É como se eu alugasse um apartamento e a proprietária me proibisse de fumar em minha casa. Se sou locatário, posso fumar em casa. O táxi foi assimilado a uma casa sobre rodas da qual o passageiro era o locatário. Dez anos depois, isso se universalizou. Quase não há táxi em que se possa fumar. O táxi não é mais assimilado a uma locação de apartamento, e sim a um serviço público. Em um serviço público, pode-se proibir de fumar. A Lei Veil. Tudo isso é jurisprudência. Não se trata de direito disso ou daquilo, mas de situações que evoluem. E lutar pela liberdade é realmente fazer jurisprudência. O exemplo da Armênia me parece típico. Os Direitos Humanos… Ao invocá-los, quer dizer que os turcos não têm o direito de massacrar os armênios. Sim, não podem. E aí? O que se faz com esta constatação? São um bando de retardados. Ou devem ser um bando de hipócritas. Este pensamento dos Direitos Humanos é filosoficamente nulo. A criação do Direito não são os Direitos Humanos. A única coisa que existe é a jurisprudência. Portanto, é lutar pela jurisprudência.
Claire Parnet: Quero voltar a uma coisa…
Gilles Deleuze: Ser de esquerda é isso. Eu acho que é criar o direito. Criar o direito.  
Claire Parnet: Voltamos à pergunta sobre a filosofia dos Direitos Humanos. Este respeito pelos Direitos Humanos é uma negação de Maio de 1968 e uma negação do Marxismo. Você não repudiou Marx, pois não foi comunista e ainda o tem como referência. E você foi uma das raras pessoas a evocar Maio de 68 sem dizer que foi uma mera bagunça. O mundo mudou. Gostaria que falasse mais sobre Maio de 68.  
Gilles Deleuze: Sim! Mas foi dura ao dizer que fui um dos raros, pois há muita gente. Basta olhar à nossa volta, entre nossos amigos, ninguém renegou 68. Claire Parnet: Sim, mas são nossos amigos.
Gilles Deleuze: Mesmo assim, há muita gente. São muitos os que não rejeitaram Maio de 68. Mas a resposta é simples. Maio de 68 é a intrusão do devir. Quiseram atribuir este fato ao reino do imaginário. Não é nada imaginário, é uma baforada de realidade em seu estado mais puro. De repente, chega a realidade. E as pessoas não entenderam e perguntavam: “O que é isso?” Finalmente, gente real. As pessoas em sua realidade. Foi prodigioso! O que eram as pessoas em sua realidade? Era o devir. Podia haver alguns devires ruins. É claro que alguns historiadores não entenderam bem, pois acredito tanto na diferença entre História e devir. Foi um devir revolucionário, sem futuro de revolução. Alguns podem zombar disso. Ou zombam depois que passou. O que tomou as pessoas foram fenômenos de puro devir. Mesmo os devires-animal, mesmo os devires-criança, mesmo os devires-mulher dos homens, mesmo os devires-homem das mulheres… Tudo isso faz parte de uma área tão particular na qual estamos desde o início de nossas questões. O que é exatamente um devir? É a intrusão do devir em Maio de 1968.
Claire Parnet: Você teve um devir-revolucionário naquele momento?
Gilles Deleuze: O seu sorriso parece mostrar bem a sua ironia… Prefiro que me pergunte o que é ser de esquerda. É mais discreto do que devir-revolucionário.
Claire Parnet: Então, vou perguntar de outra forma. Entre seu civismo de homem de esquerda e seu devir-revolucionário, como você faz? O que é ser de esquerda para você?
Gilles Deleuze: Vou lhe dizer. Acho que não existe governo de esquerda. Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria ser de esquerda, não é um governo de esquerda. Não é que não existam diferenças nos governos. O que pode existir é um governo favorável a algumas exigências da esquerda. Mas não existe governo de esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma questão de percepção. A questão de percepção é a seguinte: o que é não ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para que isso dure? As pessoas pensam: “Os chineses estão longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?” E ser de esquerda é o contrário. É perceber… Dizem que os japoneses percebem assim. Não vêem como nós. Percebem de outra forma. Primeiro, eles percebem o contorno. Começam pelo mundo, depois, o continente… europeu, por exemplo… depois a França, até chegarmos à Rue de Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção. Primeiro, percebe-se o horizonte.
Claire Parnet: Mas os japoneses não são um povo de esquerda…  
Gilles Deleuze: Mas isso não importa. Estão à esquerda em seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro, vê-se o horizonte e sabe-se que não pode durar, não é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso não pode mais durar. Não é possível esta injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da própria percepção. Ser de esquerda é começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de preservar os privilégios europeus. Deve-se encontrar os arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o Terceiro Mundo… Ser de esquerda é saber que os problemas do Terceiro Mundo estão mais próximos de nós do que os de nosso bairro. É de fato uma questão de percepção. Não tem nada a ver com a boa alma. Para mim, ser de esquerda é isso. E, segundo, ser de esquerda é ser, ou melhor, é devir-minoria, pois é sempre uma questão de devir. Não parar de devir-minoritário. A esquerda nunca é maioria enquanto esquerda por uma razão muito simples: a maioria é algo que supõe – até quando se vota, não se trata apenas da maior quantidade que vota em favor de determinada coisa – a existência de um padrão. No Ocidente, o padrão de qualquer maioria é: homem, adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce disseram coisas assim. O padrão é esse. Portanto, irá obter a maioria aquele que, em determinado momento, realizar este padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho, cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é ninguém. É um padrão vazio. Só que muitas pessoas se reconhecem neste padrão vazio. Mas, em si, o padrão é vazio. O homem macho, etc. As mulheres vão contar e intervir nesta maioria ou em minorias secundárias a partir de seu grupo relacionado a este padrão. Mas, ao lado disso, o que há? Há todos os devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser mulher por natureza. Elas têm um devir-mulher. Se elas têm um devir mulher, os homens também o têm. Falamos do devir-animal. As crianças também têm um devir-criança. Não são crianças por natureza. Todos os devires são minoritários. 
Claire Parnet: Só os homens não têm devir homem.
Gilles Deleuze: Não, pois é um padrão majoritário. É vazio. O homem macho, adulto não tem devir. Pode devir mulher e vira minoria. A esquerda é o conjunto dos processos de devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas são coisas bem conhecidassaber que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores tiveram dúvidas em relação à democracia, dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas são coisas bem conhecidas."

Abecedário de Deleuze (documentário), Gilles Deleuze.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"No décimo segundo anos após esses acontecimentos, Megacles, enfrentando dificuldades num conflito de facções, abriu negociações com Pisístrato e, propondo que este desposasse sua filha, trouxe-o de volta, empregando um expediente antiquado e extremamente simples. Começando por fazer correr um boato de que Atena estava trazendo Pisístrato de volta, descobriu uma mulher, alta e bela, de acordo com Heródoto pertencente ao demo de Paeânia, embora conforme outros relatos uma florista tŕacia de Colito, de nome Fie, trajou-a para que se assemelhasse a uma deusa e a trouxe à cidade com Pisístrato. Este surgiu na cidade dirigindo uma biga com a tal mulher em pé ao seu lado, A população, tomada de pasmo, acolheu-os reverentemente."

Constituição de Atenas, Aristóteles.

terça-feira, 1 de julho de 2014

A religião e a igreja: especulações sobre o relacionamento destas com o pensamento comtemporâneo 

Muita gente costuma confundir o conceito de religião e igreja, trocando um pelo outro. São diferentes. Igreja é um termo aplicado exclusivamente ao cristianismo. Ninguém fala em "igreja sufista" no islamismo, mas "seita", "ramificação" ou qualquer outra coisa equivalente. Igreja, e seus equivalentes, é um conjunto de pessoas que professam doutrinas mais ou menos idênticas entre si. Há um certo grau de coesão. Assim, existe a igreja católica, com um conjunto mais ou menos coeso de doutrina sobre a torá, a bíblia judaica, e seu messianismo. Porém, não há uma doutrina única e idêntica em todo lugar, o que há é uma doutrina "oficial", aquela do catecismo, e outras "piratas", que saem fora do catecismo, ou pelo menos assim são consideradas pelo grupo dominante dentro dela. Já houveram inumeras doutrinas diferentes dentro do catolicismo, e ainda há, como a teologia da libertação. Leonardo Boff, por exemplo, se considera católico, mas muitos não o consideram. Isso é igreja. Religião é a reunião de várias igrejas, com determinados princípios também mais ou menos comuns, de modo que dê pra agrupá-las. Portanto, o que há é uma religião cristã, mas várias igrejas como a católica, a assembleia, TJ etc. Mas, se dentro da igreja, há divergências entre princípios e crenças, muito mais há na religião. Os testemunhas de jeová não acreditam na divindade de Jesus, mas a igreja batista sim. O mesmo se dá com outras religiões, como a muçulmana, que tem xiitas, sunitas, drusos etc, que seriam o equivalente de nossas igrejas aqui no mundo cristão.
Nesse sentido, religião é um importante campo do conhecimento humano, mas não confundam, conhecimento aqui não equivale a uma certeza absoluta, como o senso comum geralmente encara, a religião foi uma das tentativas, talvez a mais antiga, da humanidade em reconhecer e controlar as forças naturais e a si mesmo. Obviamente, olhando com os olhos de hoje, pode parecer bastante primitivo a explicação de Tomás de Aquino sobre o sêmen, já que temos hoje a biologia que a explica muito bem. Porém, foi uma tentativa válida, e que contribuiu em sua época, para que tivéssemos a explicação científica correta como hoje. A religião pode ser considerada a infância da ciência e irmã da filosofia, da mesma forma que ninguém se considera um imbecil porque, quando criança, acreditava que o o irmão tinha vindo no bico da cegonha. Era apenas uma forma "primitiva" de conhecimento sobre a reprodução humana, plenamente válida naquela época. É nesse sentido que Nietzsche diagnosticou a "morte de Deus", Deus esse enquanto explicação última para o funcionamento da natureza, agora substituído pela ciência.
Porém, não podemos cair no erro do cientificismo, a saber, considerar a ciência como detentora de uma(s) verdade(s) total(is) e absoluta(s). Fazer isso equivaleria a concordar com o fanatismo religioso, cujo fundamento é exatamente esse, a absolutização da religião enquanto única verdade, logicamente a dele. Tudo que sabemos cientificamente falando corresponde a cerca de 2% do universo. O resto é chamada matéria escura, do qual nada sabemos ainda. É aí que entra o sobrenatural. Sobre + natural, significa além do natural, além do que conhecemos como mundo natural, algo que nós não conhecemos. Tudo que nós não sabemos pode ser dito como sendo "sobrenatural". Assim, por exemplo, a composição das estrelas poderia ser considerada sobrenatural, mas se tornou natural quando passamos a ter condições de afirmar, com grande grau de certeza, do que elas são compostas.
O que podemos ainda aprender com a religião, ao meu ver, é exatamente essa noção do para-além do conhecido, por definição não sabemos o que não conhecemos, e a religião "dá um chute" do que pode ter por lá, sem qualquer base senão a fé que, na definição da carta aos hebreus, "fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê", isto é, basicamente um "chute". Ela nos lembra sempre que somos limitados em nosso conhecimento. Se é certa a resposta, logo o tempo e nossas investigações responderão. Mas sempre é importante nunca esquecermos que, por mais avançados que somos, é muito provável que nós jamais consigamos conhecer tudo, e portanto podemos esperar tudo do desconhecido, não os deuses criados até hoje pelo ser humano, cujas inconsistências lógicas saltam aos olhos, impossibilitando-os de existirem, mas talvez algo próximo ou não do que costumamos chamar de deus. Enfim, mesmo depois de tanto tempo, Sócrates e seu "só sei que nada sei" ainda nos está pegando.

Eduardo Viveiros.
"Os gregos estavam reunidos no istmo e haviam resolvido, com um decreto, que se agregariam a Alexandre, na guerra contra os Persas. Alexande foi nomeado chefe da expedição, e recebeu as visitas de uma multidão de estadistas e de filósofos, que iam felicitá-lo pela escolha dos gregos. Ele esperava que Diógenes de Sinope, que vivia em Corinto, fizesse outro tanto, Mas, como Diógenes mostrasse que absolutamente não se preocupava com ele, ficando tranquilo no Cranium, foi ele mesmo visitá-lo. Diógenes estava deitado ao sol: e, quando viu chegar uma multidão tão grande que o procurava, levantou-se um pouco e fixou o olhar em Alexandre. Alexandre cumprimenta-o e pergunta-lhe se precisa de alguma coisa: "Sim - responde Diógenes - afasta-te um pouco do meu sol". Essa resposta - dizem - impressionou vivamente Alexandre. O desprezo que lhe mostrou Diógenes inspirou-lhe uma alta ideia da grandeza de alma deste homem; e, na volta, ouvindo seus oficiais zombar de Diógenes: "Para mim - disse - se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.""

Plutarco, Vidas Paralelas.
O califado islâmico x O Sacro Império Romano-germânico

     "Depois de avanço no Iraque, ramificação da Al Qaeda declara califado no Iraque". link da notícia: http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0F40X020140629?sp=true.  Aí está, o primeiro califado islâmico dos tempos modernos. A primeira vitória realmente positiva e importante desses últimos 30 anos de fundamentalismo religioso no Ocidente ou Oriente. Os evangélicos fundamentalistas também parecem avançar nessa direção nos E.U.A., no Brasil e outros lugares, ganham cada vez mais terreno na política. Choque de civilizações? não creio. Creio sim há um só movimento de fundamentalismo religioso que abarca o mundo todo, sob diferentes expressões, pentecostalismo no Ocidente, islamismo no Oriente Médio, Hinduísmo na índia. A meu ver, é uma reação à racionalidade ocidental predominante por aqui e por lá (Boko Haram, grupo terrorista nigeriano, significa "a educação ocidental é um pecado"), muito semelhante ao avanço do fundamentalismo cristão no início da idade média, que levou ao colapso e a destruição de quase toda a ciência e filosofia pagã greco-romana, simbolizada pela destruição da biblioteca de Alexandria, do qual só sobraram restos esparsos. A questão a saber é se, repetindo a história, conseguirão destruir a ciência e a filosofia tal como naquela época, e entraremos numa nova idade média, ou se dessa vez será diferente? creio que não. E a razão é a internet: ao contrário daquele tempo, o conhecimento hoje está muito bem preservado no mundo virtual, e é virtualmente impossível destruírem-no todo de uma vez, pois ele não se concentra num único lugar, e sim está espalhado em milhares de servidores alocados pelo mundo todo. Além disso, não há apenas 50 ou 100 cópias das obras, e sim bilhões, de modo que, se destruírem uma, milhões têm a chance de sobreviverem esquecidas por aí, em meios diversos, como no P2P, blogs, 4Shared etc, e a arquitetura da internet é tal que não pode ser destruída de uma vez, a menos que todos os países do mundo concordem com isso, o que é praticamente impossível, dado os interesses específicos de cada político dos 200 e tantos países independentes que existem. Então, o conhecimento certamente vai sobreviver. Mas será que vai ganhar? só vendo para crer. Mas a perspectiva diria ser otimista: dados dizem que o mundo vem se tornando menos violento e menos supersticioso desde pelo menos o fim da idade média. Parece que, lentamente, a racionalidade vai vencendo a superstição religiosa, movimento que ganhou impulso grande com o iluminismo e a revolução francesa, e muito acelerado no século XIX e XX. Um sintoma disso é o mundo árabe: olhando para ele, é inegável a sua semelhança com a Europa medieval até pelo menos o século XVIII. Porém, há sinais claros de que há em gestação dentro deles um movimento em prol da racionalidade e do pensamento científico, os quais redescobre cada vez mais seu passado esquecido de avanço humanista e científico de antes do século XVI. A primavera árabe foi um desses sintomas, assim como a falta de ressonância do pensamento fundamentalista muçulmano como o ISIL entre a maioria da população, majoritamente muçulmana moderada, não obstante a violência e repressão dos radicais islâmicos. O secularismo islâmico ganhou força depois dessa primavera em vários lugares. Embora atualmente fortemente reprimido em vários lugares, como no Egito, o movimento de crescimento do secularismo parece ser evidente. Não há que se esperar que de repente, esta cultura secular se implante por lá, basta observar que os vencedores das eleições após os conflitos da primavera, foram os partidos religiosos como a irmandade muçulmana. Entretanto, as perspectivas são boas: o secularismo ocidental vem exercendo grande influência sobre o secularismo islâmico, dentro de um contexto de globalização e aproximação de diversas civilizações entre si, muitas vezes instantaneamente pelo Skype ou Gmail. Mas, note-se bem: o secularismo islâmico, embora influenciado pelo ocidental, é independente, gestado legítimamente dentro do pensamento islamita. Não é simplesmente uma importação do Ocidente, como alegado pelos conservadores. Vejamos o que vem por aí. 
 
Eduardo Viveiros
 
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