terça-feira, 21 de outubro de 2014

"O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos."

Simone de Beauvoir

    Porque no Brasil é tão frequente tal coisa, isto é, um pobre a cerrar fileiras com a playboyzada, popularmente conhecidos como "direita pão com ovo", ao invés de tomarem consciência de serem classe oprimida e se unirem como tal? ou um negro contra os movimentos negros, ou um gay contra os movimentos gays (E eleitores de Marcos Feliciano e do Bolsonaro)? Isso não é um fenômeno exclusivamente daqui do Brasil, acontece no mundo todo. No entanto, por aqui, há uma boa explicação histórica. Acompanhem:

"    É preciso ainda lembrar a instituição da alforria. Escravos buscavam sua liberdade de várias formas. A mais radical era a fuga, complementada com a organização de quilombos, locais de organização social alternativa ao mundo das leis escravistas que existiram até mmesmo em cidades como o RIo de Janeiro. Com o passar do século XIX, marcado pela pressão internacional e pelas lutas locais pela abolição, a alforria toma lugar de destaque como meio de obter liberdade.
    A alforria tinha várias feiçõs. Os veículos formais podiam ser uma declaração registrada em cartório, um testamento, uma declaração privada escrita ou até mesmo o registro de batismo, quando o senhor libertava o recém-nascido. Mas as condições da alforria eram muito variadas, podendo gerar uma série de constrangimentos sociais. Podia haver uma alforria incondicional, que libertava o sujeito sem mais; podia ser comprada, com o escravo ou alguma entidade abolicionista apagando ao dono um valor estipulado por este como indenização pelo valor do bem que era o escravo; havia também uma modalidade intermediária, a coartação, em que o escravo recebia o benefício de trabalhar por conta própria até acumular o dinheiro com que poderia comprar sua liberdade (era chamado "escravo de ganho"); e havia a alforria condicional, que limitava a liberdade concedida mediante obrigação do alforriado de continuar prestando serviços a seu dono até a morte deste, por exemplo.
    Até a altura de 1860, todas as alforrias eram revogáveis, se é que dá para imaginar tal horror: um sujeito comprava sua liberdade, com esforço, ou era contemplado pela sorte de ser alforriado por uma velha senhora, digamos, e no dia seguinte sua condição podia ser revertida, por simples ato do antigo dono. Isso significa que até aquela década um escravo liberto nunca se livrava do fantasma do cativeiro. Por outro lado, havia alforrias concedidas contra a vontade do senhor: se o escravo conseguisse provar que sua servidão era ilegal, podia acionar o aparelho judiciário para ver cumprida a lei, Isso sem contar as alforrias por serviços, por exemplo na guerra.
    Era nas cidades que os escravos tinham maiores chances de obter alforria, especialmente os que trabalhavam nas casas, os escravos domésticos. As mulheres tinham mais chances de obter a alforria do que os homens, e parece que mulatos e pardos conseguiam o benefício mais do que os negros. FINALMENTE, VALE LEMBRAR QUE A ALFORRIA FUNCIONAVA TAMBÉM COMO UM ELEMENTO DE PRESSÃO IDEOLÓGICA SOBRE O ESCRAVO, QUE COM A PERSPECTIVA DE GANHAR A LIBERDADE TENDIA A TER COMPORTAMENTO DÓCIL, SUBMISSO, COMO FORMA DE CAPTAR A BENEVOLÊNCIA, QUE PORÉM PODIA NÃO VIR.
    Essa trama complexa de possibilidades dá uma boa ideia de como era a relação entre negros, mulatos e brancos, entre escravos e senhores, entre alforriados e livres no Rio de Janeiro de então,. Pode-se imaginar o quanto valia o favor, o "jeitinho", a subserviência, que poderiam render benefícios que chegavam até a alforria, mas que não garantiam nada, pois o poder ods proprietários era absoluto."

Luís Augusto Fischer, Panorama do Rio de Janeiro: alguns elementos para compreeender o mundo de Machado de Assis (Quincas Borba, editora LP & M).

    Se considerarmos que a imensa maioria, senão todo o povo brasileiro é descendente de negros africanos escravidos e trazidos à força da África durante cinco séculos, então fica fácil deduzir que, formados na mentalidade dócil e subserviente para com o senhor branco (que é a origem direta da nossa classe dominante), nossos antepassados aprenderam desde sempre que, em vez de se unirem enquanto grupo oprimido perante o grupo opressor, o que era o "certo" a fazer era se submeter incondicionalmente ao opressor, visando "agradá-lo" em tudo para que então "merecesse" benevolência e um bom tratamento de sua parte. Foram levados a crer que, se fizessem o serviço direitinho, podiam até mesmo ganhar o mais cobiçado troféu: a liberdade. Agradar ao opressor também significa, necessariamente, opor-se a qualquer um que indicasse um outro caminho, nomeadamente a revolta e o assassinato dos opressores. Deduzimos que é daí, então, que vem a percepção geral de que o povo brasileiro é pacífico e "ordeiro", isto é, até se é permitido fazer-se mudanças ou reformas, mas tudo estritamente dentro da "ordem", jamais indo às raias da violência, por mais legítima que seja. E, seguindo com isto o caminho "aprovado" pela classe opressora, compreende-se o secular medo manifestado por praticamente todos os pensadores brasileiros até hoje, quase todos saídos das hostes da classe rica, no qual o uso da palavra "anarquia" abunda, anarquia essa que nada mais é do que o povo resolvendo os problemas fora do script ditado por eles, como guerras ou revoluções. Aí está a origem da total falta de solidariedade dentro da própria classe oprimida e de uma conscientização mais ampla sobre sua condição.
    Desenvolvendo mais tal pensamento, pode-se dizer que o escravo não apenas se submetia ao seu senhor; ele sempre tentou imitá-los, pois os via como superiores a si mesmo, portanto como modelos. Sabe-se historicamente que a imensa maioria dos escravos, se libertados e de alguma forma tornando-se abastados, a primeira coisa que faziam era comprar outros escravos, símbolos de status numa sociedade calcada na escravidão. Veja-se só o espetáculo: negros escravizados escravizando outros negros escravizados. Isso também repercute nos dias atuais: é comum alguém que, alguns anos atrás mal tendo o que comer, agora faz parte do que comumente se denomina "nova classe média", isto é, pessoas que ascenderam socialmente a um patamar de vida superior ao que tinha anteriormente. Porém, passados a vida toda a terem como modelos de ser bem-sucedido a classe rica, não querem apenas terem o que comer ou vestir, querem IMITÁ-LOS. Isso significa ajuntar durante anos ou pedir emprestado ao banco para comprar um carro caríssimo, como o famoso Camaro amarelo, um celular custosamente astronômico, roupas caras etc, enfim, coisas que supostamente perante a sociedade tornariam a pessoa membro da classe rica, um playboy, ainda que, por mais que a situação econômica tenha melhorado, na realidade a pessoa está muito distante de ter reais condições de adquirir. Não apenas ao nível material: a pessoa começa a se comportar como se fosse membro da classe abastada. Passa então a reproduzir exatamente o mesmo pensamento daquelas pessoas, sem qualquer noção crítica do contexto completamente diferente em que tais e quais vivem. E, com isso, ou desconhecem ou fingem desconher que, agindo assim, estão agindo contra si mesmas. Quando um playboy fala que bandido bom é bandido morto, por exemplo, o que ele quer dizer é que o perfil de bandido dele, isto é, preto, pobre e morador de cortiços e favelas, devem ser caçados impiedosamente como animais pela polícia e, se estiverem longe das câmeras, assassinados sem dó. Aqui não interessa nem um pouco se a pessoa é realmente criminosa ou não, o que interessa é o perfil: se ela se encaixar no perfil, então automaticamente há grandes possibilidades de ela ser um bandido em potencial e, pelo sim pelo não, é melhor meter uma bala na cabeça que está tudo certo. O oprimido, ansioso por imitar e ser aceito no meio da classe opressora, aceita de chofre tal pensamento, imaginando que este é o passaporte para entrar lá, a felicidade suprema, ignorando ou fingindo ignorar que ele está na verdade concordando em ser discriminado, espancado ou mesmo morto por aqueles a quem ele vê como herois e modelos. Aqui está a explicação para a "nova classe média", que recentemente foi responsável por eleger figuras emblemáticas da playboyzada como Bolsonaro e Fraga, terem opiniões muitas vezes ultrajantes a respeito de si mesmos.
    É claro que, obviamente há muitas outras causas que concorrem para opiniões extremamente conservadores dentro da favela e do cortiço, como a doutrinação nazifascista da educação moral e cívica da ditadura, o próprio processo de formação do Brasil, o conceito de estamento patrimonialista transplantado da península ibérica para cá, o catolicismo medieval também aqui naturalizado etc. Entretanto, com este fato historico, quero apenas mostrar um desses muitos aspectos que contribuem enormemente para entendermos o pensamento da generalidade do povo brasileiro em geral, especialmente porque vejo muita gente às vezes em choque, sem entender direito como é possível pobres traírem sua própria classe social e comungarem com a playboyzada do condomínio de luxo em opiniões que visam claramente seu próprio extermínio, como a violência policial. Espero que agora isto fique mais claro, e não nos surpreendamos tanto ao ver um gay a apoiar Silas Malafaia, por exemplo.


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