sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

"Desde os primórdios, a concepção europeia do novo continente teve duas facetas, completamente opostas: por um lado, a terra era vista quase sempre como um éden; por outro, o homem aparecia demonizado. " Aqui está a origem do ufanismo e patriotismo fajuto de nossa elite, sempre a exaltar as belezas naturais do país (Brasil, ame-o ou deixe-o, ninguém segura esse país, Deus é brasileiro, terra abençoada por Deus...), ao mesmo tempo que despreza e odeia a população desse mesmo país por ser descendente de "bárbaros" indígenas e negros (Esse país não tem jeito, eita povinho ruim, é só aqui que esse tipo de coisa acontece, o que estraga o Brasil é esse povinho que mora aqui...)

http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/um_paraiso_chamado_brasil.html
Um pouco da história da Estrutural, aquela do filme "meu amigo Nietzsche":

"Na época, o cenário era semelhante ao de um campo de concentração nazista, como lembra o advogado. A cidade foi cercada. Ninguém entrava ou saía livremente. Não havia água, luz, telefone, gás.
A alimentação era restrita, inclusive, o leite das crianças, como conta um morador. As pessoas não podiam levar móveis ou utensílios de casa, além de serem presas em jaulas. À noite, pedidos de socorro, gritos e tiros eram a trilha sonora."

http://site.jornalregional.com.br/index2.php?option=noticia&value=5320
É o que descobri cerca de 3 meses atrás, depois de passar uma vida inteira enganado pelo eurocentrismo e racismo. Pouco sei ainda, mas já é o suficiente, diante de uma sociedade tão racista como a nossa, para ser enquadrado na lei de segurança nacional da ditadura, que ainda vigora intacta no país.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/11/descendentes-precisam-saber-que-historia-da-africa-e-tao-bonita-quanto-a-da-grecia.html
"Art. 16 - Integrar ou manter associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado de Direito, por meios violentos ou com o emprego de grave ameaça.
Pena: reclusão, de 1 a 5 anos.
Art. 17 - Tentar mudar, com emprego de violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito.
Pena: reclusão, de 3 a 15 anos.
Parágrafo único.- Se do fato resulta lesão corporal grave, a pena aumenta-se até a metade; se resulta morte, aumenta-se até o dobro. [...]
Art. 22 - Fazer, em público, propaganda:
I - de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;
II - de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa;
III - de guerra;
IV - de qualquer dos crimes previstos nesta Lei.
Pena: detenção, de 1 a 4 anos.
§ 1º - A pena é aumentada de um terço quando a propaganda for feita em local de trabalho ou por meio de rádio ou televisão.
§ 2º - Sujeita-se à mesma pena quem distribui ou redistribui:
a) fundos destinados a realizar a propaganda de que trata este artigo;
b) ostensiva ou clandestinamente boletins ou panfletos contendo a mesma propaganda."

Lei de segurança nacional.

A pergunta que não quer calar: Por que é que ainda não prenderam o pessoal acampado no congresso, do mídia sem máscara, o revoltados online, o Lobão, o Bolsonaro, seus filhos, o Olavo de Carvalho, o padre Paulo Ricardo e a restante escumalha que violam cotidianamente esta lei ao defender um golpe militar e o derrube do estado de direito, lei está que ainda está em vigor, ironicamente aprovada por eles mesmo em 83? Para bom entendedor, meia palavra basta.
"O diabo os leve! O que sei é que eu não sou marxista”.

Karl Marx (apud Carta a Conrad Schmidt, Friedrich Engels, 05 de agosto de 1890)
"A mentalidade católica acredita que a mulher é a grande pecadora, a fonte de pecado desde Eva. Tinha que associar um pouco a figura feminina a Exu. A pombagira acabou sendo a representação mais explícita da sexualidade proibida, perigosa e ao mesmo tempo muito desejada por todos. É uma grande construção cultural e ponto de conflito e perseguição na oposição das religiões evangélicas. São sempre figuras de bordel, associadas a vida desregrada."

http://ceticismo.net/2009/02/04/a-intolerancia-contra-o-candomble-a-raiz-do-racismo-no-brasil/
“Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem. Sem dúvida esse homem conhecerá noites ruins, em que estará cansado e encontrará fechado o portão da cidade que lhe deveria oferecer repouso; além disso, talvez o deserto, como no Oriente, chegue até o portão, animais de rapina uivem ao longe e também perto, um vento forte se levante, bandidos lhe roubem os animais de carga. Sentirá então cair a noite terrível, como um segundo deserto sobre o deserto, e o seu coração se cansará de andar. Quando surgir então para ele o sol matinal, ardente como uma divindade da ira, quando para ele se abrir a cidade, verá talvez, nos rostos que nela vivem, ainda mais deserto, sujeira, ilusão, insegurança do que no outro lado do portão e o dia será quase pior do que a noite. Isso bem pode acontecer ao andarilho; mas depois virão, como recompensa, as venturosas manhãs de outras paragens e outros dias, quando já no alvorecer verá, na neblina dos montes, os bandos de musas passarem dançando ao seu lado, quando mais tarde, no equilíbrio de sua alma matutina, em quieto passeio entre as árvores, das copas e das folhagens lhe cairão somente coisas boas e claras, presentes daqueles espíritos livres que estão em casa na montanha, na floresta, na solidão, e que, como ele, em sua maneira ora feliz ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: – eles buscam a filosofia da manhã.”

Friedrich Nietzsche, Aforismo 638, “Humano, Demasiado Humano” (1878).
Agora está claro porque favelas aqui no DF são chamadas pelos playboys do Plano Piloto de "invasões": a cidade não foi feita para nós, o povo brasileiro, logo somos "invasores" de algo que nunca nos pertenceu:
"Neste sentido deve-se impedir a enquistação de favelas tanto na periferia urbana quanto na rural."

Lúcio Costa, Relatório do Plano Piloto de Brasília.
"O mito da democracia racial apoiava-se, e ainda se apóia, na generalização de casos de ascensão social do mulato; este, nas palavras de Carl Degler, encontrara uma "saída de emergência", o que significa dizer que se desenvolveu um reconhecimento social do mestiço no Brasil. Todavia, a assimilação e reconhecimento social do mestiço ocorria à custa da depreciação dos negros. O que está por trás deste mecanismo brasileiro de ascensão social é a concordância da pessoa negra em negar sua ancestralidade africana, posto que está socialmente carregada de significado negativo. Ironicamente, dentro deste contexto da "saída de emergência", os casos de ascensão social de pessoas de cor não enriqueciam o grupo social dos negros, uma vez que as pessoas de cor que ascendiam eram encaradas como "negros de alma branca" (Fernandes, 1965)."
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-546X2002000200002
Como? Já agora não sabe porque é que o professor no Brasil tem o mesmo status de duas mãos cheias de nada? Não sabe porque é que ele é insultado e chamado de ptralha-comunista-esquerdopata no Facebook quando cai no "erro" de corrigir alguma diarreia mental tipo "direitos humanos para humanos direitos" que por acaso pipocou em sua timeline, e é insultado por aqueles mesmos que foram lá cantar que ", não quero copa não, quero dinheiro pra saúde e educação" nos protestos de 2013? Não sabe porque é que aquele PM do rio virou heroi nacional por ter quebrado o cassetete nas costas de um professor ("foi mal fessor")? Não sabe porque é que a Veja e sua escumalha de leitores exultaram de alegria quando 200 professores no Paraná foram parar no hospital? Ora, não seja tolo: vá numa escola pública qualquer e veja que a imensa maioria dos professores são mulheres. Qual é o tratamento que uma profissão tradicionalmente feminina teŕa num país que bate no peito e se orgulhar de matar 15 mulheres por dia por qualquer coisa?
"LEI CONTRA O CRISTIANISMO
Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).
Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo.
Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.
Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração com um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais duros com protestantes que com católicos, e mais duros com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo você está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.
Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.
Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.
Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.
Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita das palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui."

Nietzsche, O Anticristo.
Sobre como se cria uma universidade revolucionária a nível mundial, como o conservadorismo tentou a todo custo conservar o status quo excludente matando-a à porrada com seus garotos de recado militares, e como ela sobreviveu e tornou-se uma das melhores universidades do país http://www.unb.br/sobre/principais_capitulos

terça-feira, 8 de setembro de 2015


"Para entender isto, você tem que voltar ao que o irmão mais novo aqui se referiu como Negro da Casa e Negro do Campo - voltemos à escravidão. Havia dois tipos de negros. Havia o Negro da Casa e o Negro do Campo. O Negro da Casa era aquele que vivia na casa de seu senhor, vestia-se muito bem, comia bem porque comia de sua mesma comida, isto é, o que ele, o senhor, deixava. Eles viviam no sótão ou no porão, mas ainda assim viviam perto de seu senhor; e eles amavam o seu senhor mais do que seu senhor os amava. Eles dariam sua vida para salvar seu senhor mais ligeiro do que seu senhor o faria. O Negro da Casa, se o senhor dissesse: "Nós temos uma casa muito boa por aqui", o Negro da Casa diria, "sim, nós temos uma boa casa aqui." Qualquer coisa no qual seu senhor dissesse "nós", ele também diria "nós". Isto é o que chamamos de Negro da Casa.
Se a casa grande pegasse fogo, o negro da casa lutaria com mais ardor para apagar as chamas do que seu senhor o faria. Se seu senhor caísse doente, o negro da casa diria, "qual é o problema, chefe, estamos doentes?" Estamos doentes! ele se identificava de tal maneira com seu senhor do que seu senhor se identifica consigo mesmo. E se vocẽ fosse para a casa do negro da casa e dissesse, "vamos fugir, vamos escapar, vamos nos separar (dos brancos)", o negro da casa te olharia e diria, "Cara, você está louco! O que significa "separar?" Qual lugar é melhor do que esta casa aqui? Onde eu poderia me vestir melhor do que aqui? Onde nós comeríamos mehor do que aqui?" Este era o negro da casa. Naqueles tempos, ele era chamado de "preto de casa." E é como nós o chamamos ainda hoje, porque ainda há muitos pretos da casa por aí.
O moderno negro da casa ama seu senhor. Ele quer viver perto dele. Ele paga três vezes mais caro por uma casa apenas para viver perto de seu senhor, e então se vangloria dizendo "sou o único negro aqui!", "sou o único negro em meu trabalho!", "sou o único negro na escola!". Vocẽ não é nada mais do que um negro da casa. E se alguém vier até você agora e dizer, "vamos nos separar," você diz a mesma coisa que um negro da casa dizia na plantação. "O que significa 'separar'? da América? do homem branco bondoso? onde você vai conseguir um emprego melhor do que os que nós temos aqui?" quer dizer, isto o que você diz. "Eu não larguei nada na África!", isto é o que você diz. Porque sim, você deixou seu cérebro na África.
Na mesma plantação, havia o Negro do Campo. O negro do campo - Estes eram a maioria. Havia sempre muito mais negros no campo do que negros na casa. O negro no campo passava o inferno. Ele comia restos. Na senzala eles comiam restos de porco. O negro do campo não possuía nada exceto as entranhas do porco. Eles chamam-lhes de "chittlins" nos dias de hoje. Nestes dias eles chamam-lhes como eles são: tripas. Isto é o que você é - um comedor de tripas. E alguns de vocês ainda são comedores de tripas.
O negro do campo era espancado de manhã até a noite. Ele vivia em uma cabana, em um barraco. Ele usava roupas velhas e gastas. Ele odiava seu senhor. Mas ele era inteligente. O negro da casa amava seu senhor. Mas aquele negro do campo, lembrem-se, eles eram a maioria, e eles odiavam seu senhor.Quando a casa grande pegava fogo, ele não tentava apagar as chamas; o negro do campo rezava para que aparecesse um vento, uma brisa. Quando o senhor ficava doente, o negro do campo rezava por sua morte. Se alguém viesse ao negro do campo e dissesse, "Vamos nos separar, vamos fugir," ele não dizia "onde nós vamos?" ele dizia, "qualquer lugar é melhor do que aqui.". Nós temos negros do campo na América hoje. Eu sou um negro do campo. As massas são negros do campo. Quando eles veem o cara da casa (casa branca) em apuros, você não ouve estes pequenos negros dizendo algo como "NOSSO GOVERNO está com problemas." Eles dizem, "O GOVERNO está com problemas." Imagine um negro: "Nosso governo"! Eu já cheguei a ouvir alguém dizer "nossos astronautas." Eles nem mesmo deixariam-no chegar perto de uma das bases de lançamento - e são "nossos astronautas!" "Nossas Forças Armadas!" - Este é um negro que está fora de seu juízo perfeito. Este negro está completamente fora de si.
Tal como os senhores de escravos daqueles tempos usavam Tomás (personagem da Cabana do Pai Tomás), isto é, o negro da casa, para manter os negros do campo pressionados, os mesmos antigos senhores de escravos de hoje possuem negros que não são nada mais do que modernos Pai Tomás, Pai Tomás do século 20, para manter você e eu pressionados, manter-nos sob controle, manter-nos passivos e pacíficos e não-violentos. Isto é o que o pai Tomás faz para te manter não-violento. É como quando vocẽ vai ao dentista, e o cara quer arrancar seu dente. Você certamente resistiria a ele quando sentisse dor. Então ele esguicha alguma coisa em seu dente chamada novocaína, para fazer você pensar que não estão fazendo nada com você. Então você se senta lá e, por causa da novocaína em seu dente, você sofre em paz. O sangue jorra de seu dente, e você não sabe o que está acontecendo. Porque alguém ensinou você a sofrer - Em paz."

Mensagem à Grassroots, Malcom X, 10 de novembro de 1963.

sexta-feira, 3 de julho de 2015


GUERNICA

"Dir-lhes-ás: juro por mim mesmo, diz o Senhor, tratar-vos-ei como vos ouvi dizer. Vossos cadáveres cairão nesse deserto. Todos vós que fostes recenseados da idade de vinte anos para cima, e que murmurastes contra mim, não entrareis na terra onde jurei estabelecer-vos, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Nun. Todavia, introduzirei nela os vossos filhinhos, dos quais dizíeis que seriam a presa do inimigo, e eles conhecerão a terra que desprezastes. Quanto a vós, os vossos cadáveres ficarão nesse deserto, onde os vossos filhos guardarão os seus rebanhos durante quarenta anos, pagando a pena de vossas infidelidades, até que vossos cadáveres apodreçam no deserto. Explorastes a terra em quarenta dias; tantos anos quantos foram esses dias pagareis a pena de vossas iniqüidades, ou seja, durante quarenta anos, e vereis o que significa ser objeto de minha vingança. Eu, o Senhor, o disse. Eis como hei de tratar essa assembléia rebelde que se revoltou contra mim. Eles serão consumidos e mortos nesse deserto!”

Êxodo 14, 28 - 35.

Década de 80. A chamada década perdida. E o nome é elogioso: Nessa década, o Brasil não se perdeu. Foi DESTRUÍDO. Teve o pescoço partido tal como Seyia na guerra galáctica. Quebrou-se em mil pedaços, como uma bola de cristal jogada ao chão. Foi arrasado, devastado, como um país que se rendeu ao final de uma longa guerra sangrenta, algo somente comparável ao que os alemães chamam de Stunde Null (zero hora em alemão), nome dado à meia-noite do dia 08 de maio de 1945, o dia em que a capitulação das forças nazistas entrou em vigor. Um país em ruínas. (Conferir: http://www.valor.com.br/…/278…/mae-de-todas-crises-do-brasil).
Mas as consequências econômicas, embora importantes e sempre lembradas em primeiro lugar quando recorda-se esse tempo, nada são perante as consequências sociais dessa matança. Refiro-me à geração de crianças e jovens nascidas nessa época, vítimas traumatizadas das maiores taxas de desnutrição infantil do mundo, da maior desigualdade social do planeta, de uma das formas mais violentas de racismo do globo, vítimas de altíssimas taxas de trabalho escravo infantil desde o nascimento, obrigadas a beberem lama de poças d'água compartilhados com cães sarnentos e ratazanas do tamanho de gatos, vindos diretamente de bueiros da casa dos playboys, e a brincarem de futebol em lixões, entre montes de lixo hospitalar e produtos radioativos como césio 137, a aspirar desde bebês o ar carregado de poeira vermelha das vielas que um dia seriam conhecidas como ruas, obrigadas a terem como almoço e janta, além da farinha cozinhada pela mãe, a refeição da escola, mas apenas quando os políticos não haviam-nas furtado para comprar um carro zero KM como presente de aniversário de 18 anos do futuro genocida hoje no congresso nacional e na FIESP, isto é, quase nunca. Esta geração, a geração a qual ninguém precisa lhes dizer o que é o inferno porque já o viram com seus próprios olhos, esta geração é a minha geração, a que hoje vai lá pelos 30 e tal anos, solteiros, casados ou separados a algum tempo e com filhos ainda muito pequenos. É esta geração que está atualmente no comando dos destinos do país, não na política, claro, mas trabalhando, pagando seus impostos, apresentando programas de TV, dando aulas em escolas públicas e privadas, cantando em shows e casas noturnas, compondo músicas, fazendo trabalhos voluntários, escrevendo livros, artigos de jornal, fazendo pães quentes toda manhã na padaria, atendendo os clientes no bordel, indo atrás de bandidos em viaturas toda noite nas ruas, colocando capuzes e o ferro na cinta para roubar e sequestrar na madrugada com os parças, pedindo esmolas nas ruas, esperando o ônibus 4 da manhã na paragem, durmindo nos engarrafamentos dentro deles na volta para casa. As coisas aparentemente parecem normais e rotineiras, como sempre foram. Mas não são.
Não conseguimos ver agora, mas aquelas marcas deixadas pela década perdida foram profundas, muito mais do que conseguimos imaginar. Somos todos uma geração TRAUMATIZADA pela fome, pela peste e pela guerra, as três pragas simbólicas do apocalipse, somos diferentes de todas as outras. Somos todos uma geração narcisista, egoísta, personalista. Uma geração profundamente abalada pelas pancadas violentíssimas da vida, por isso pessimista e fatalista. Uma geração que cresceu vendo os maus-exemplos triunfarem sobre os bons. Aliás, é melhor dizer: uma geração que cresceu sem ver exemplo algum, nem de bom nem de mal. Apenas o Nada. Uma geração que cedo descobriu que estudar de nada vale, pois por mais que se estude e se esforce, jamais subirá na vida se você não tiver uma "peixada", bons contactos e um padrinho poderoso a dar-lhe apoio. Uma geração que, por isso, aprendeu a desprezar o estudo como algo de alérgico, de ruim, de bastardo, de inútil e, como brinde, também aprendeu a desprezar o senso crítico, por culpa própria, mas muito mais por culpa de um plano milimetricamente calculado e executado pela proibição da filosofia e sociologia na educação, para que em seu lugar entrasse a Educação Moral e Cívica, trunfo mais poderoso que a doente ditadura militar, na época apenas pressentindo seu fim, conseguiu preservar incólume até bastante recentemente, mesmo depois de já estarmos numa democracia há anos. Uma geração contraditória em tudo. Uma geração Coca-Cola. Em suma, uma geração profundamente DESILUDIDA ("Meus herois morreram de overdose, meus inimigos estão no poder", Cazuza). Os destroços dos "sonhos, que foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito". Uma geração AMALDIÇOADA.
Mas AMALDIÇOADA por quem? por qual motivo? quem seria tal tirano cruel e desumano, a condenar uma geração inteira a APODRECER NO DESERTO? seria esta MALDIÇÃO justa para seres inocentes que apenas tiveram o azar de nascer na hora errada, na HORA DA ESTRELA (Clarice Lispector)? Não há respostas. Apenas o eco de nossas próprias vozes, nos rochedos, ao longe [....].
Estamos condenados a morrer, a morrer "neste vasto e terrível deserto, cheio de serpentes ardentes e escorpiões, terra árida e sem água" (Deuteronômio 8, 15). Todos nós. Ninguém escapará. "Todavia, introduzirei nela os vossos filhinhos, dos quais dizíeis que seriam a presa do inimigo, e eles conhecerão a terra que desprezastes. " Sim, serão nossos filhinhos pequenos de hoje que verão a Terra Prometida, a terra onde mana leite e mel. Não nós. Serão eles, seus netos e tataranetos que, um dia, verão um país muito melhor, mais justo e mais humano. Um país em que um homossexual não mais será assassinado a sangue frio com uma barra de ferro por andar de mãos dadas com o namorado pela madrugada. Um país onde os assassinos não serão carregados em triunfo pelas ruas ao serem absolvidos por inexistir a Lei contra a Homofobia. Um país em que você não será assassinada pelo outrora grande amor de sua vida com um faca, que ele a usará para desossá-la e jogar seus restos mortais na represa. Um país onde as filhas desta mulher não crescerão ouvindo que "mulher que apanha do marido é vagabunda, é porque gosta de apanhar". Um país em que você não será torturado e esquartejado ao voltar do serviço de pedreiro porque a polícia achou que vocẽ era bandido por causa da sua cor. Um país onde a mídia não terá programas em horário nobre louvando a ação dos racistas com o jingle "bandido bom é bandido morto." Mas, para que isso aconteça, é preciso antes pavimentar o caminho para que eles encontrem tudo encaminhado na medida do possível quando passarmos o bastão. É preciso manter a chama que Prometeu deu-nos, o objeto sagrado furtado aos deuses, todos nós a quem nos foi dado ver de longe a Terra Prometida, como Moisés, a nós cremos nos direitos humanos. É preciso terminar nossa missão como Aioros terminou, depois de enfrentar aqueles que pretendiam matar a Deusa da Sabedoria, da Coragem, da Justiça e da Inspiração:
- As forças do Mal estão no santuário, e juraram matar este ser inocente, proteja-o!
- Arrisquei minha vida ao trazer o bebê até aqui [...], muitos dos cavaleiros, fascinados pelo poder do Mal, se puseram à disposição do novo Mestre [...] eu não poderei ir mais longe [...], por favor, cuide dessa menina até ela crescer [....], esta menina é a reencarnação da deusa Athena que Deus envia sempre que o Mal domina o mundo [...] mais cedo ou mais tarde, cavaleiros muito corajosos vão lutar ao lado da deusa Athena para garantir a segurança dela [...] eles lutarão até a morte para salvar o planeta dos horrores que o ameaçam [...] deverão esforçar-se sem descanso para que sejam dignos do nome de Cavaleiros do Zodíaco, e mereçam um dia vestir a armadura de ouro....
Quanto a nós, aqueles que possuem consciência da terrível dor que trazemos no peito, só nos resta fazer como Moisés:
"Subiu Moisés das planícies de Moab ao monte Nebo, ao cimo do Fasga, defronte de Jericó. O Senhor mostrou-lhe toda a terra, desde Galaad até Dã, todo o Neftali, a terra de Efraim e de Manassés, todo o território de Judá até o mar ocidental, o Negeb, a planície do Jordão, o vale de Jericó, a cidade das palmeiras, até Segor. O Senhor disse-lhe: Eis a terra que jurei a Abraão, a Isaac e a Jacó dar à sua posteridade. Viste-a com os teus olhos, mas não entrarás nela. E Moisés, o servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab, como o Senhor decidira. E ele o enterrou no vale da terra de Moab, defronte de Bet-Fogor, e ninguém jamais soube o lugar do seu sepulcro. Moisés tinha cento e vinte anos no momento de sua morte: sua vista não se tinha enfraquecido, e o seu vigor não se tinha abalado." (Deuteronômio 34, 1 - 7). "Cobriram-lhe as trevas os olhos" (Ilíada).

Eduardo Viveiros, Filósofo.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SUCCÈS DE SCANDALE

O escândalo é dito como uma ação ou evento de má fama, que vai contra a "moral e os bons costumes" sociais, isto é, contra as regras escritas ou implícitas que a regem. Assim, quando falamos de "escândalo de corrupção", diz-se que a corrupção nos choca pois seria um comportamento antissocial. São quebradas as regras de convivência e harmonia social, no qual acredita-se que, se quiser enriquecer, então deve-se jogar limpo, sem suborno ou qualquer outro tipo de favorecimento pessoal. Pode também ser um ação na qual uma determinada pessoa, até então vista como de "reputação ilibada" ou adepta de determinado comportamento ou opinião social, repentinamente é flagrada fazendo algo que vai precisamente contra sua "reputação ilibada", como um ativista antigay e racista flagrado no CONIC (conhecida zona de prostituição em Brasília) a transar com um preto dentro do carro, ou contra suas opiniões anteriores, como um outro famoso padre da Toca de Assis, aquele que aparecia direto na Canção Nova o qual, de acordo com Dom João Braz, ex-arcebispo de Brasília, envolveu-se em "comportamentos moralmente indignos com seus seguidores" (para bom entendedor, meia palavra basta). O escândalo, portanto, aparece como algo ruim, capaz de acabar com carreiras e reputações.
Filosoficamente, a concepção de escândalo nada tem a ver com esta do senso comum. O escândalo (grego skandalon = "armadilha, cilada, obstáculo") é aquilo que vai contra o que todos aceitam e acham normal. Ele é a "pedra de escândalo" ("a pedra que os construtores rejeitaram tornou-e a pedra angular, uma pedra de escândalo", Carta de Pedro 2, 8), a pedra no caminho "normal" ("no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho", Carlos Drummond). Aristóteles, em seu livro "Metafísica", afirma: "O que na origem levou os homens às pesquisas filosóficas foi, tal como hoje, o espanto". O espanto é, portanto, a origem da filosofia. O que é o espanto? é o virar do avesso, é assustar com o normal. Tudo que era "normal" agora já não é, o simples tornou-se complexo e já nada mais faz sentido. Tudo está confuso. É a dúvida filosófica, e é em busca de respostas às dúvidas que aquele que se espantou começará sua jornada filosófica.
Nossa sociedade é repleta de preconceitos que são passados de geração em geração como um patrimônio sagrado e inquestionável. São ditas serem coisas "normais" e que todos fazem. É o "certo" a fazer. Todo e qualquer ser humano, e só existe ser humano na sociedade ("Ora, aquele que não pode viver em sociedade, ou que nada precisa por bastar-se a si próprio, não faz parte do Estado; é um bruto ou um deus.", Aristóteles, Política) é, sem que se dê conta, adestrado a absorver todos os preconceitos de sua sociedade. E o que é o preconceito? o preconceito é o PRÉ-conceito, o conceito anterior ao Conhecimento. São as respostas prontas que somos educados a aceitar sem questionar ("mulher no volante, perigo constante", "mulher que namora muito é piranha", "não tenha medo, homem, não seja mulherzinha!"). Se todos seguissem à risca o que nosso sociedade diz que é o certo, seríamos australopitecos ainda hoje. Não haveria nenhuma mudança social. Porém, se 99% da sociedade realmente nasce, cresce e morre sem questionar a si mesmo e a sociedade, existe 1% que não o faz. São aqueles que questionam os pré-conceitos sociais e expõem às claras tudo aquilo que muitos um dia pressentem, mas não possuem coragem de falar: expõem a hipocrisia e  a contradição dos pre-conceitos. São os Escandalosos. São estes que jogam a bosta no ventilador, são os piratas que acabam com a paz idílica e bucólica das maravilhosas praias ensolaradas e com águas quentes de Hong Kong (Projeto China, Jack Chan), são os que batem na cara da sociedade, podendo ser com luva de pelica como Machado de Assis ou com um martelo como Nietzsche.
O escândalo, portanto, é o ataque frontal a todos os pré-conceitos sociais, ao normal, ao que todo mundo pensa e faz. Aristóteles, em seu livro "Poética", nos apresenta o conceito de Catarse. Segundo ele, catarse (grego katharsis = purificação) é o ato proporcionado pela tragédia na qual as emoções do ouvinte se "purificam" através da tragédia, na qual um heroi mitológico, por exemplo Édipo, passa do estado de felicidade à infelicidade, provocando assim sentimentos de piedade e terror. O escândalo também tem um motivo de ser bastante claro: ele sempre "purifica" aqueles que tomam contacto com ele  de seus pré-conceitos, porque os força a "virar do avesso", a se colocar do outro lado. Quando ficamos sabendo de um caso de pedofilia, por exemplo, por mais que a imensa maioria sociedade esteja se lixando para nossa juventude, o que fica evidente com a rifa do "futuro da nação" na panaceia chamada "redução da maioridade penal", esta mesma sociedade leiloeira choca-se e é obrigada a se colocar contra sua vontade no lugar da criança explorada e maltratada pois, por mais que se despreze as crianças, nomeadamente pretas e pobres, são somente a dos outros que são desprezadas. As de sua família são anjinhos, o que levam a mente a automaticamente pensar nelas diante de uma agressão social que pode acontecer com qualquer um, inclusive com as delas, e praticamente todos tem crianças na família. Há uma catarse. Um outro exemplo é a crucificação de Jesus na parada gay. A sociedade, cujo comportamento padrão é espancar, estuprar e matar homossexuais com a mesma placidez com que bebe-se um copo d'água, considera absolutamente normal e parte da paisagem homossexuais ou héteros confundidos com um aparecerem decapitados no jornal ou na net, ninguém liga, possui o mesmo peso de achar um anúncido das casas Bahia no chão. No entanto, há uma contradição aqui: a religião dominante desta sociedade é a cristã, que adora como Deus um bandido torturado e assassinado a sangue frio por ter tratado a escória social daquele tempo, tais como prostitutas, mendigos e vagabundos como gente, inclusive deitando ao lixo toda a doutrina judaica ao afirmar que seriam eles que seriam salvos por Deus (o pai), não os beatos e ratos de igreja. Apesar de, ao longo dos séculos, a gangue chamada igreja ter traído seu próprio mestre e se aliado despudoradamente ao poder opressor, o mesmo que o executou, jamais o pensamento libertário e revolucionário do verdadeiro Jesus desapareceu de cena, sempre pipocando aqui e ali. O pessoal da parada gay observou atentamente tal fato e, voilá, nasceu mais um escândalo social para nos purificar de nosso pré-conceito, neste caso o de rebaixar a uma condição inumana os homossexuais com a benção dos padres e pastores cristãos, aliados incondicionais da classe dominante, autorizando legalmente perante Deus, ou melhor, perante a falsa concepção de Deus inventada pela teologia cristã, o assassinato em massa deles durante dois milênios. Há novamente uma catarse, atestada fartamente pelos inúmeros protestos, ameaças de morte e ataques físicos e psicológicos ao homossexuais país afora, o que comprova que a sociedade foi atingida em cheio na boca do estômago. Foi um enorme sucesso, a ser celebrado durante anos a fio por eles.
O escândalo, sendo um desvio ao sacro, ao certo, ao que todo mundo faz, é o que move o mundo. Com efeito, todas as grandes descobertas  da sociedade tiveram origem porque alguém pensou diferente, como se diz, "fora da caixa". Mas, por isso mesmo, estas pessoas tiveram que enfrentar toda sorte de hostilidade, inimizade e outros graves problemas por terem sido consideradas "marginais". A própria igreja católica é um exemplo disso: o celebrado Tomás de Aquino, o original, não o espantalho criado pela facção conservadora neotomista da igreja para servir à sua ideologia depravada e caduca, enfrentou fortíssima resistência em sua época por ter tomado conhecimento da doutrina de um antigo filósofo grego pagão, portanto considerado herético e banido, denominado Aristóteles, e tentado refinar a gambiarra tosca que era a teologia católica aproveitando-se dos conceitos do velho Filósofo, como ele o chamava depreciativamente. Duns Scotus também foi caiu no desagrado do alto clero e foi bruscamente transferido de Paris para Colônia, apenas com a roupa do corpo. A lista de "marginais", dentro e fora da igreja, é imensa.
No entanto, basta olhar ao redor, e ver o quão benéfico é o escândalo: tudo ao nosso redor, que chamamos "civilização", é produto do escândalo. É a ele que devemos o que somos e o que temos hoje. Sem ele, estacionaríamos, ou melhor, nem teríamos saído do lugar. Assim como uma das funções dos filósofos é olhar para além da cortina que todos veem, e examinar o que há nos bastidores e que muito poucos veem, assim também a função do escândalo é olhar para além do normal, do cotidiano, dos pré-conceitos, e forçar um exame deles, para termos coragem de seguir em frente. Escandalizar é filosofar, e filosofar é escandalizar.

Eduardo Viveiros, Filósofo.
SOBRE A TEOLOGIA CRISTÃ, OU COMO A FILOSOFIA GREGA FOI ESTUPRADA PELOS CRISTIANISMO

"O maior problema, contudo, ao qual foi submetida a obra aristotélica, encontra sua causa no tortuoso percurso linguístico e cultural do qual ela foi objeto até atingir a Europa cristã.
Apesar do enorme interesse despertado pela descoberta dos textos acroamáticos ou esotéricos em meados do século I a.c., o mundo culto ocidental (então, a Europa) logo foi tomado pela fé cristã e a seguir pela cristianização oficial estabelecida pela igreja, mesmo ainda sob o Império Romano.
A cristianização do Império romano permitiu aos poderosos Padres da Igreja incluir a filosofia grega no contexto da manifestação pagã, convertendo o eu cultivo em prática herética. A filosofia aristotélica foi condenada e seu estudo posto na ilegalidade. Entretanto, com a divisão do Império romano em 385 a.D., o corpus aristotelicum, composto por Andrônico de Rodes, foi levado de Roma para Alexandria.
Foi no Império romano do Oriente (Império bizantino) que a obra de Aristóteles voltou a ser regularmente lida, apreciada e finalmente traduzida...para o árabe (língua semita, que, como sabemos, não entretém qualquer afinidade com o grego) a partir do século X.
Portanto, o PRIMEIRO Aristóteles TRADUZIDO foi o dos grandes filósofos árabes, particularmente Avicena (Ibn Sina, morto em 1036) e Averróis (Ibn Roschd, falecido em 1198),ambos exegetas de Aristóteles, sendo o último considerado o mais importante dos PERIPATÉTICOS ÁRABES da Espanha, e NÃO o da latinidade representada fundamentalmente por Sto. Tomás de Aquino.
Mas, voltando no tempo, ainda no século III, os Padres da Igreja (homens de ferro, como Tertuliano, decididos a consolidar institucionalmente o cristianismo oficial a qualquer custo), concluíram que a filosofia helênica, em lugar de ser combatida, poderia revelar-se um poderoso instrumento para a legitimação e fortalecimento intelectual da doutrina cristã. Porém, de que filosofia grega dispunham em primeira mão? somente do neoplatonismo e do estoicismo, doutrinas filosóficas gregas que, de fato, se mostravam conciliáveis com o cristianismo, especialmente o último, que experimentara uma séria continuidade romana graças a figuras como Sêneca, Epíteto e o imperador Marco Aurélio Antonino.
Sob os protestos dos representantes do neoplatonismo (Porfírio, Jâmblico, Proclo etc.), ocorreu uma apropriação do pensamento grego por parte da igreja. Situação delicadíssima para os últimos filósofos gregos que, se por um lado podiam perder suas cabeças por sustentar a distinção e/ou oposição do pensamento grego ao cristianismo, por outro tinham que admitir o fato de muitos de seus próprios discípulos estarem se convertendo a este, inclusive através de uma tentativa de compatibilizá-lo não só com Platão, como também com Aristóteles, de modo a torná-los "aceitáveis" para a igreja.
Assim, aquilo que ousaremos chamar de APROPRIAÇÃO DO PENSAMENTO GREGO foi encetado inicialmente pelos próprios discípulos dos neoplatônicos, e se consubstanciou na conciliação do cristianismo (mais exatamente a teologia cristã que principiava a ser construída e estruturada naquela época) primeiramente com o platonismo via neoplatonismo e depois com o aristotelismo, não tendo sido idsso pioneiros nem os grandes vultos da patrística (São Justinio, Clemente de Alexandria, Orígenes e mesmo Sto. Agostinho) relativamente a Platão, nem aqueles da escolástica (John Scot Erigene e Sto Tomás de Aquinio) relativamente a Aristóteles.
A primeira consequência desse "remanejamento" filosófico foi nivelar Platão e Aristóteles. Afinal, não se tratava de estudar a fundo e exaustivamene os grandes sistemas filosóficos gregos - os pragmáticos Padres da Igreja viam o vigoroso pensamento helênico meramente como um precioso veículo a atender seu objetivo, ou seja, propiciar fundamento e conteúdo filosófico à incipiente teologia cristã.
Os discípulos cristãos dos neoplatônicos não tiveram, todavia, acesso aos manuscritos originais do corpus aristotelicum.
Foi através da conquista militar da península ibérica e da região do mar Mediterrâneo pelas tropas cristãs, inclusive durante as cruzadas, que os cristãos voltaram a ter contato com as obras do Estagirita, precisamente por intermédio os INFIÉIS, ou seja, tiveram acesso às TRADUÇÕES E PARÁFRASES árabes (e mesmo hebraicas) a que nos referimos anteriormente.
A partir do século XII começaram a surgir as primeiras traduções latinas (latim erudito) da obra de Aristóteles. Conclusão: o Aristóteles linguística e culturamente original durante séculos jamais frequentou a Europa medieval.
Tanto Andrônico de Rodes, no século I a.C., ao estabelecer o CORPUS ARISTOTELICUM, quanto o neoplatônico Porfírio no século III ressaltaram nesse corpus o órganon (série de tratados dedicados à lógica, ou melhor, à Analítica, no dizer de Aristóteles) e sustentaram a ampla divergência doutrinária entre os pensamentos de Platão e Aristóteles. Os discípulos cristãos dos neoplatônicos, a partir da alvorada do século III, deram realce à lógica, à física e à retórica, e levaram a cabo a proeza certamente falaciosa de conciliar os dois maiores filósofos da Grécia. Qunto aos estócios romanos, também prestigiaram a lógica aristotélica, mas deram destaqu à ética, não nivelando Aristóteles a Platão, mas os aproximando.
O fato é que a igreja obteve pleno êxito no seu intento, graças à inteligência e sensibilidade agudas de homens como o bispo de Tagasta, Aurélio Agostino (Sto Agostinho) (354 - 430 d.C.)e o dominicano oriundo de Nápoles, Tomás de Aquino (Sto. Tomás) (1224 - 1274), que se revelaram vigorosos e fecundos teólogos, superando o papel menor de meros intérpretes e APROVEITADORES das originalíssimas concepções gregas.
Quanto a Aristóteles, a igreja foi muito mais além e transformou o IL FILOSOFO (como Aquino o chamava) na suma e única autoridade do conhecimento, com o que, mais uma vez, utilizava o pensamento grego para alicerçar os dogmas da cristandade e, principalmente, respaldar e legitimar sua intensa atividade política oficial e extraoficial, caracterizada pelo autoritarismo e a centralização do poder em toda a Europa.
Se, por um lado, o Estagirita se sentiria certamente lisonjeado com tal posição, por outro, quem conhece seu pensamento sabe que também certamente questionaria o próprio CONCEITO de autoridade exclusiva do conhecimento. (BINI, 2010, p. 19 - 22).

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Maria Rosa Mística: Sermão XIV com o santíssimo sacramento exposto (1633, Padre António Vieira)
Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.  

I
Não é coisa nova, posto que grande e singular, que o Evangelista S. João receba em sua casa a Virgem Mãe de Deus e Mãe sua. Nem é coisa nova que as festas do mesmo S. João as honre e autorize a Virgem Santíssima com a majestade e favores de sua presença. Nem é coisa nova, finalmente, que o que havia de ser panegírico do Evangelista seja sermão do Rosário. Tudo isto, que já foi em diferentes dias, temos junto e concordado hoje no concurso da presente solenidade. Não é coisa nova que o evangelista S. João receba em sua casa a que é Mãe de Deus e sua, porque naquele grande dia, em que lhe coube por legado no testamento do Redentor do mundo, não com menor título que de Mãe, a que era Mãe do mesmo Cristo: Ecce Mater tua- logo então, e desde a mesma hora recebeu S. João a Senhora em sua casa, para nela assistir e servir, como fez por toda a vida: Et ex illa hora accepit eam discipulus in sua. - E isto é o que torna a fazer hoje o mesmo evangelista, porque chamando-se em frase dos sagrados ritos casa própria de cada um dos santos aquele dia que a Igreja dedicou à sua celebridade, neste dia e nesta casa recebe hoje S. João a Senhora, dando-lhe nela o lugar devido, que é o primeiro e principal. Nem é coisa nova que as festas de S. João as honre e autorize a Virgem Santíssima, com a majestade e favores de sua presença, porque nas bodas de Caná de Galiléia o ser S. João o esposo foi a razão de se achar ali a Senhora: Et erat Mater Jesu ibi. - E se foi favor da sua piedade e assistência a conversão de água em vinho, não foi menor graça ou milagre da Virgem das Virgens que S. João, por imitar sua virginal pureza, renunciasse então o matrimônio, e o convertesse em celibato. Finalmente, não é coisa nova que o que havia de ser panegírico do Evangelista seja sermão do Rosário, porque, como se refere nas histórias dominicanas, indo o patriarca S. Domingos para pregar de S. João em tal dia como hoje, ao tempo que recolhido a uma capela da mesma igreja se estava encomendando a Deus, lhe apareceu a Virgem Maria, e lhe mandou que deixasse o sermão que tinha meditado de S. João, e pregasse o seu Rosário. Fê-lo assim o grande Patriarca dos Pregadores, e o fruto do sermão que, pelo zelo e eficácia do pregador sempre costumava ser grande, pela graça e virtude de quem o mandou pregar foi naquela ocasião muito maior e mais patente com igual proveito e admiração dos ouvintes.
Mas, que fará cercado das mesmas obrigações, tantas e tão grandes, quem não só falto de semelhante espírito, mas novo ou noviço no exercício e na arte, é esta a primeira vez que, subido indignamente a tão sagrado lugar, há de falar dele em público? Vós, soberana Rainha dos anjos e dos homens, e Mãe da Sabedoria incriada - a quem humildemente dedico as primícias daquelas ignorâncias que ainda se não podem chamar estudos, como única protetora deles - pois o dia e assunto é, Senhora, de vossos maiores mistérios, vos dignais de me assistir com a luz ou sombra da graça, com que a virtude do Altíssimo, no primeiro de todos, vos fez fecunda: Ave Maria.

 
II
Temos hoje - por outro modo do que já o disse - três dias em uma festa: o dia e a festa de S. João, o dia e festa da Senhora do Rosário, e o dia e a festa dos pretos, seus devotos. E quando fora necessário termos também três Evangelhos, um só Evangelho, que nos propõe a Igreja, qual é? Posto que largo em nomes e gerações, é tão breve e resumido, no que finalmente vem a dizer, que todo se encerra na cláusula que tomei por tema: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus. - Se o sermão houvera de ser do nascimento de Cristo, que é a solenidade do oitavário corrente, não podia haver outro texto, nem mais próprio do tempo, nem mais acomodado ao mistério; mas, havendo de pregar, não sobre este, senão sobre outros assuntos, e esses não livres, senão forçados, e sendo os mesmos assuntos não menos que três, e todos três tão diversos, como os poderei eu fundar sobre a estreiteza de umas palavras, que só nos dizem que Jesus nasceu de Maria: Maria, de qua natus est Jesus? - Suposto, pois, que nem é lícito ao pregador - se quer ser pregador- apartar-se do tema, nem o tema nos oferece outra coisa mais que um Filho nascido de Maria, multiplicando este nascimento em três nascimentos, este nascido em três nascidos, e este Filho em três filhos, todos três nascidos de Maria Santíssima, esta mesma será a matéria do sermão, dividido também em três partes. Na primeira, veremos com novo nascimento nascido de Maria a Jesus; na segunda, com outro novo nascimento, nascido de Maria a S. João; e na terceira, também com novo nascimento, nascidos de Maria aos pretos seus devotos. Dêem-me eles principalmente a atenção que devem, e destes três nascimentos nascerão outros tantos motivos com que reconheçam a obrigação que têm de amar, venerar e servir a Virgem, Senhora nossa, como Mãe de Jesus, como Mãe de S. João, e como Mãe sua.

 
III
Primeiramente, digo que temos hoje nascido de Maria a Cristo, Senhor nosso, não como nasceu há três dias, mas com outro nascimento novo. E que novo nascimento é este? É o nascimento com que nasceu da mesma Mãe daqui a trinta e três anos, não em Belém, senão em Jerusalém. Isto é o que diz o nosso texto, e provo: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus: Maria da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo. - Cristo quer dizer ungido, Jesus quer dizer salvador. E quando foi Cristo salvador, e quando foi ungido? Foi ungido na Encarnação e foi salvador na cruz. Foi ungido na Encarnação quando, unindo Deus a si a humanidade de Cristo, a exaltou sobre todas as criaturas, como diz Davi: Unxit te Deus, Deus tuus, oleo laetitiae, prae consortibus tuis. - E foi salvador na cruz, quando por meio da morte, e pelo preço de seu sangue, salvou o gênero humano, como diz S. Paulo. Factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis. Propter quod et Deus exaltavit illum, et donavit illi nomen, quod est super omne nomen, ut in nomine Jesu omne genu flectatur. - Logo, quando Cristo, Senhor nosso, nasceu em Belém, propriamente nasceu Cristo, mas não nasceu Jesus, nem salvador: nasceu Cristo, porque já estava ungido pela união hipostática com que a Pessoa do Verbo se uniu à humanidade; e não nasceu Jesus nem salvador, porque ainda não tinha remido o mundo, nem o havia de remir e salvar, senão em Jerusalém, daí a trinta e três anos.
Fala o profeta Isaías do parto virginal de Maria Santíssima - como notaram S. Gregório Niceno e S. João Damasceno - e diz assim: Antequam parturiret, peperit; antequam veniret partus ejus, peperit masculum. - Na primeira cláusula diz que pariu a Senhora antes das dores do parto, que isso quer dizer: Antequam parturiret - e na segunda diz que pariu antes do parto: Antequam veniret partus ejus, peperit. - Não é necessário que nós dificultemos o passo, porque o mesmo profeta confessa que disse uma coisa inaudita, e que nunca se viu semelhante: Quis audivit unquam tale? Et quis vidit huic simile? - Que a bendita entre todas as mulheres saísse à luz com o fruto bendito de seu ventre sem padecer dores, privilégio era devido à pureza virginal, com que o concebeu, e assim o confessa a nossa fé. Mas que parisse antes do parto: Antequam  veniret partus ejus -como se pode entender, senão supondo na mesma Senhora dois partos do mesmo Filho, e supondo também que o primeiro parto foi sem dores, e o segundo com dores? Assim foi, e assim o diz: quem? O nosso português Santo Antônio, que é bem preceda agora a todos os outros doutores da Igreja, pois falamos na sua: Beatae Marie duplex fuit partus, unus in carne, alius in spiritu. Partus carnis fuit virgineus, et omni gaudio plenus, quia peperit sine dolore gaudium angelorum. Secundus partus fuit dolorosus, et omni amaritudine plenus, in Filii ejus passione, cujus animam pertransivit gladius: Sabeis por que faz menção Isaías de dois partos da Virgem Beatíssima, e no primeiro nega as dores, e no segundo não? A razão é - diz o Mestre Seráfico - porque este foi o modo e a diferença com que a Senhora pariu ao seu bendito Filho, não uma, senão duas vezes: a primeira vez sem dores, antes com júbilos, e quando entre cantares de anjos o pariu no presépio; a segunda vez com dores, e cheia de amarguras, quando, trespassada da espada de Simeão, o tornou a parir ao pé da cruz. -Uma vez nascido Cristo em Belém, e outra vez nascido em Jerusalém; uma vez nascido no princípio da vida, e outra vez nascido no fim dela; uma vez trinta e três anos antes, e outra vez trinta e três anos depois, que por isso o profeta, falando deste segundo parto, disse advertidamente: Antequam veniret partus ejus - porque um parto depois do outro havia de tardar em vir tantos anos.
E, posto que bastava por prova da minha proposta a autoridade de tão grande intérprete das Escrituras, como Santo Antônio, a quem por essa causa chamaram os oráculos de Roma Arca do Testamento, diga-nos o mesmo o evangelista S. João, com texto mais claro que o de Isaías. No capítulo doze do seu Apocalipse viu S. João aquela mulher tão prodigiosa como sabida, a quem vestia o Sol, calçava a lua, e coroavam as estrelas; e diz que, chegada a hora do parto, foram não só grandes, mas terríveis as dores com que pariu um filho varão, o qual havia de ser senhor do mundo e governador de todas as gentes: Cruciabatur ut pariat, et peperit filium masculum, qui recturus erat omnes gentes. - Esta mulher prodigiosa, em cujo ornato se empenharam e despenderam todas as luzes do céu, era a Virgem Santíssima; o Filho, senhor do mundo, e que havia de governar todas as gentes, era Cristo, governador do universo e senhor dele. Mas, se o parto da mesma Virgem foi isento de toda a dor e moléstia, que dores e que tormentos são estes com que agora S. João a viu parir, não outro, senão o mesmo filho? A palavra cruciabatur, que é derivada da cruz, basta por comento de todo o texto. O Filho era o mesmo, e a Mãe a mesma, mas o parto da Mãe e o nascimento do Filho não era o mesmo, senão muito diverso. Era o segundo nascimento do Filho, em que, por modo superior a toda a natureza, havia de nascer morrendo. E porque este segundo nascimento foi entre dores, tormentos e afrontas, e com os braços pregados nos de uma cruz, por isso a mesma cruz do nascimento do Filho foi também a cruz do parto da Mãe: Et cruciabatur ut pariat.
Nasceu o Filho crucificado na sua cruz, e pariu-o a Mãe crucificada na cruz do Filho, e se perguntarmos - que é o que só nos resta – por que o Filho no segundo nascimento nasceu assim, e a Mãe o pariu do mesmo modo? A razão, como dizia ao princípio, não foi outra senão porque Cristo no primeiro parto nasceu propriamente Cristo, e neste segundo nasceu propriamente Jesus. Esta foi a diferença com que o anjo anteontem anunciou aos pastores o nascimento do mesmo Cristo: Quia natus est vobis hodie Salvator, qui est Christus (Lc. 2,11): Alegrai-vos, porque hoje nasceu o Salvador, que é Cristo. - Notai que não disse: Qui est Salvator - assim como disse: Qui est Christus - porque o menino nascido já era Cristo, mas ainda não era salvador. Havia de ser salvador, e, para ser salvador nascia; mas ainda o não era. Cristo sim: Qui est Christus - porque já estava ungido na dignidade de Filho de Deus; mas na de Jesus e de salvador ainda não, porque essa não a havia de receber no presépio, senão na cruz: Factus obediens usque ad mortem crucis, ut in nomine Jesu omne genu flectatur. -E aqui é que propriamente nasceu Jesus, e não de outra Mãe, senão da mesma Virgem Maria: Maria, de qua natus est Jesus.

 
IV
O segundo filho da mesma Virgem Maria, e nascido também no Calvário, e com novo e segundo nascimento, foi São João. E que seria se disséssemos que também deste nascimento se verifica o nosso texto? O em que agora reparo nas palavras de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus, é que este vocatur parece impróprio, e este Christus supérfluo. O nome próprio do Filho de Deus, e Filho de Maria, é Jesus; este nome lhe foi posto no dia da circuncisão, e assim o tinha revelado o anjo antes de ser concebido: Vocatum est nomen ejus Jesus, quod vocatum est ab angelo prius quam in utero conciperetur.  Logo o vocatur, aplicado, não ao nome Jesus, senão ao sobrenome Christus, parece impróprio; e o mesmo sobrenome Christus também parece supérfluo, porque só seria necessário para distinguir um Jesus de outro Jesus. Porventura há outro Jesus, e nascido de Maria, que se não chame Cristo? Digo que sim. Há um Jesus Filho de Maria que se chama Cristo, e há outro Jesus, também Filho de Maria, que se chama João. E por isso o evangelista, para distinguir um Jesus de outro Jesus, e um filho de Maria de outro filho de Maria, não supérflua, senão necessariamente acrescentou ao nome o sobrenome, e não só disse: Maria, da qual nasceu Jesus - senão: Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.
Quando o mesmo Cristo estava na cruz, disse à sua Santíssima Mãe: Ecce filius tuus(15); estas palavras eram equívocas, e mais naturalmente se podiam entender do mesmo Cristo, que as dizia, do que de outro por quem as dissesse. E como tirou o Senhor esta equivocação? Tirou-a com os olhos e com a inclinação da cabeça, que só tinha livre, apontando para João. Bem. Mas, porque não disse, este é outro filho que vos deixo em meu lugar, senão este é o vosso filho: Ecce filius tuus? - Não há dúvida, responde Orígenes, que, falando o Senhor por estes termos, quis significar declaradamente que ele e João não se distinguiam, e que João não era outro filho da Senhora, senão o mesmo Jesus, que ela gerara e dela nascera. Notai as palavras, que não podem ser mais próprias, e a razão, que não pode ser mais subida: Nam si nullus est Mariae filius praeterquam Jesus, dixitque Jesus: Ecce filius tuus; perinde est, ac sic dixisset: Hic est Jesus quem genuisti. -Pois se Jesus e João eram dois, e tão infinitamente diversos, Jesus o Senhor, e João o servo; Jesus o Mestre, e João o discípulo; Jesus o Criador; e João a criatura; Jesus o filho de Deus, e João o filho de Zebedeu, como era ou como podia ser João, não outro filho, senão o mesmo filho, nem outro Jesus, senão o mesmo Jesus que a Senhora gerara: Hic est Jesus quem genuisti? - S. Pedro Damião reconhece aqui um mistério semelhante ao do Sacramento; mas eu, sem recorrer a milagre, entendo que tudo isto se decifra e verifica com ser João o amado: Discipulus quem diligebat. -Era o amado? Logo era outro, e era o mesmo Jesus. Enquanto Jesus e João eram o mesmo por amor, eram um só Jesus; e enquanto João por realidade era outro, eram dois Jesus.
Os filósofos antigos, definindo a verdadeira amizade, qual naquele tempo era, ou qual devia ser, disseram: Amicus est alter ego: O amigo é outro eu. - Logo, enquanto o amigo é eu ego - eu e ele somos um; e enquanto ele é outro - alter - ele e eu somos dois, mas ambos os mesmos, e isto é o que obrou sem milagre, por transformação recíproca, o amor de Jesus em João. A mesma antigüidade nos dará o exemplo. Depois da famosa vitória de Alexandre Magno contra el-rei Dario, foi trazida a rainha-mãe diante do mesmo Alexandre, a cujo lado assistia seu grande privado Efestião. E como a rainha fizesse a reverência a Efestião, cuidando que ele era o Magno, por ser mais avultado de estatura, e, avisada do seu erro, o quisesse desculpar, acudiu Alexandre, como refere Cúrcio, com estas palavras: Non errasti mater; namque et hic Alexander est: Não errastes, senhora, porque este também é Alexandre. - Assim o disse o grande monarca, mais como discípulo de Aristóteles que como filho de Filipe. E se o amor - que eu aqui tenho por político e falso - ou fazia ou fingia que Alexandre e Efestião fossem dois Alexandres: Namque et hic Alexander est - o amor verdadeiro sobrenatural, da parte de Cristo divino, e da parte de João mais que humano, por que não fariam que Jesus e João fossem dois Jesus? Não há dúvida que naquele passo estavam dois Jesus no Calvário, um na cruz, outro ao pé dela.
Quando Eliseu disse a Elias: Fiat in me duplex spiritus tuus  -não me passa persuadir que lhe pedisse dobrado espírito do que era o seu, porque seria demasiada presunção de discípulo para mestre; o que quis dizer, foi que o espírito de Elias se dobrasse e multiplicasse em ambos, e que Elias o levasse, pois se ia, e o deixasse a Eliseu, pois ficava. E neste caso, se o espírito de Elias fosse com Elias e ficasse com Eliseu, Elias porventura seria um só Elias? De nenhum modo - diz S. João Crisóstomo. - Dobrou-se o espírito de Elias, e multiplicou-se em Eliseu, como ele tinha pedido; mas então não houve um só Elias, senão dois Elias: Erat duplex Elias ille, et sursum Elias, et deorsum Elias. - Arrebatou o carro de fogo a Elias, e no mesmo tempo e no mesmo lugar, diz Crisóstomo, se viram então dois Elias, um em cima, outro embaixo; um no ar, outra na terra; um no carro, outro ao pé dele: Et sursum Elias, et deorsum Elias. - O mesmo se viu no nosso caso. O carro triunfal, em que o Redentor do mundo triunfou da morte, do pecado e do inferno, foi a cruz; levantado nela o Senhor, partia-se o Mestre, e ficava o discípulo: mas como? Como Elias e Eliseu. E assim como Elias e Eliseu eram dois Elias; duplex Elias - assim Jesus e João eram dois Jesus; e assim como lá um Elias se via em cima outro embaixo: Et sursum Elias et deorsum Elias - assim cá também um Jesus estava em cima, outro Jesus embaixo, um no ar outro na terra, um na cruz outro ao pé da cruz. E para que ninguém duvidasse que o milagre com que Jesus se tinha dobrado e multiplicado em João era por virtude e transformação do amor, o mesmo João advertidamente não se chamou aqui João, senão o amado: Cum vidisset Jesus matrem, et discipulum stantem, quem diligebat. - Sendo, pois, João, por transformação do amor, outro Jesus, e Jesus e João dois Jesus, com razão acrescentou o evangelista ao nome de Jesus o sobrenome de Cristo: Jesus qui vocatur Christus - para distinguir um Jesus de outro Jesus.
Nem basta por distinção o declarar que era Filho de Maria, e de Maria nascera: Maria, de qua natus est - porque no mesmo lugar do Calvário, onde Cristo, enquanto Jesus, nasceu segunda vez de sua Santíssima Mãe - como dissemos - também S. João, com segundo nascimento, nasceu da mesma Senhora, sendo João desde aquele ponto filho de Maria: Ecce filius tuus - e Maria, Mãe de João: Ecce Mater tua - e por isso, no mesmo tempo e no mesmo lugar, Mãe de dois Jesus: um Jesus que se chama João, e outro Jesus que se chama Cristo: De qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.

 
V
O terceiro nascimento, de que também se verificam as mesmas palavras, é o dos pretos, devotos da mesma Senhora, os quais também são seus filhos, e também nascidos entre as dores da cruz. O profeta-rei, falando da Virgem Maria debaixo da metáfora de Jerusalém - a que muitas vezes é comparada, porque ambas foram morada de Deus - diz assim: Homo et homo natus est in ea, et ipse fundavit eam Altissimus (Sl.86,5): Nasceu nela o homem e mais o homem: e quem a fundou, foi esse mesmo Altíssimo. - Estas segundas palavras declaram o sentido das primeiras, e de umas e outras se se convence que o mesmo Deus que criou a Maria é o homem que nasceu de Maria. Enquanto homem nasceu dela: Homo natus est in ea - e esse mesmo, enquanto Deus, a criou a ela: Et ipse fundavit eam Altíssimus. - Assim o diz e prova com evidência Santo Agostinho. Mas o profeta ainda diz mais, porque não só diz que nasceu da Senhora esse homem, que enquanto Deus a criou, senão que nasceu dela o homem e mais o homem: Homo et homo natus est in ea. - Se um destes homens nascidos de Maria é Deus, o outro homem, também nascido de Maria, quem é? É todo o homem que tem a fé e conhecimento de Cristo, de qualquer qualidade, de qualquer nação e de qualquer cor que seja, ainda que a cor seja tão diferente da dos outros homens, como é a dos pretos. Assim o diz o mesmo texto, tão claramente que nomeia os mesmos pretos por sua própria nação e por seu próprio nome: Memor ero Rahab et Babylonis, scientium me; ecce alienigenae, et Tyrus, et populus Aethiopum, hi fuerunt illic. - Nasceram da Mãe do Altíssimo, não só os da sua nação, e naturais de Jerusalém, a que é comparada, senão também os estranhos e os gentios -alienigenae. - E que gentios são estes? Rahab: os cananeus, que eram brancos; Tyrus: os tírios, que eram mais brancos ainda, e sobre todos, e em maior número que todos: populus Aethyopum: o povo dos etíopes, que são os pretos. De maneira que vós, os pretos, que tão humilde figura fazeis no mundo e na estimação dos homens, por vosso próprio nome e por vossa própria nação estais escritos e matriculados nos livros de Deus e nas Sagradas Escrituras, e não com menos titulo nem com menos foro que de filhos da Mãe do mesmo Deus: Et populus Aethiopum, hi fuerunt illic.
E posto que o texto é tão claro e literal que não admite dúvida, ouçamos o comento de Santo Tomás, Arcebispo de Valença: Aethyopes non abjicit Virgo decora, sed amplectitur ut parvulos, diligit ut filius. Sciant ergo ipsam matrem etenim quia Altissimi mater est, Aethyopis matrem nominari non dedignatur. - O profeta pôs no último lugar os etíopes e os pretos, porque este é o lugar que lhes dá o mundo, e a baixa estimação com que são tratados dos outros homens, filhos de Adão como eles. Porém, a Virgem Senhora, sendo Mãe do Altíssimo, não os despreza, nem se despreza de os ter por filhos; antes, porque é mãe do Altíssimo, por isso mesmo se preza de ser também sua Mãe: Etenim quia Altissimi mater est, Aethyopismatrem nominari non dedignatur. - Saibam, pois, os pretos, e não duvidem que a mesma Mãe de Deus é Mãe sua: Sciantergo ipsam matrem - e saibam que com ser uma Senhora tão soberana, é Mãe tão amorosa, que, assim pequenos como são, os ama e tem por filhos: Amplectitur ut parvulos, diligit ut filios. Até aqui Santo Tomás.
E se me perguntarem os curiosos quando alcançaram os pretos esta dignidade de filhos da Mãe de Deus, respondo que no monte Calvário e ao pé da cruz, no mesmo dia e no mesmo lugar em que o mesmo Cristo, enquanto Jesus e enquanto Salvador, nasceu com segundo nascimento da Virgem Maria: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus. - Este parece o ponto mais dificultoso desta terceira proposta. Mas assim o diz com propriedade e circunstância admirável o mesmo texto de Davi. Porque os etíopes, que no corpo do salmo se chamam nomeadamente filhos da Senhora, no título do mesmo salmo se chamam filhos de Coré: ln finem filius Core pro arcanis. - Esta palavra pro arcanis nota e manda advertir que se encerra aqui um grande mistério. E que mistério tem chamarem-se estes filhos da Virgem Maria filhas também de Coré? Santo Agostinho, na exposição do mesmo salmo: Magni sacramenti est, ut dicantur filii Core, quia Core interpretatur Calvaria. Ergo filii passionis illius, filii redempti sanguine illius, filii crucis illius: Coré, na língua hebréia, quer dizer Calvário, e chamam-se filhos do Calvário, e filhos da paixão de Cristo, e filhos da sua cruz os mesmos que neste texto se chamam nomeadamente filhos da Virgem Maria, porque, quando no Calvário e ao pé da cruz nasceu da Virgem Maria, com segundo nascimento, seu benditíssimo Filho, enquanto Jesus e Salvador do mundo, então nasceram também, com segundo nascimento, da mesma Senhora todos os outros filhos das outras nações que o profeta nomeia, e entre eles, com tão especial menção, os etíopes, que são os pretos:Et populus Aethyopum, hi fuerunt illic. -De sorte que, assim como no Calvário e ao pé da cruz nasceu de Maria com segundo nascimento Cristo, e assim como no Calvário e ao pé da cruz nasceu de Maria com segundo nascimento S. João, assim ao pé da cruz nasceram também com segundo nascimento da mesma Virgem Maria os pretos, verificando-se de todos os três nascimentos, por diferente modo, o texto no nosso tema: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.
Estou vendo que cuidam alguns que são isto encarecimentos e lisonjas daquelas com que os pregadores costumam louvar os devotos nos dias da sua festa. Mas é tanto pelo contrário, que tudo o que tenho dito é verdade certa e infalível, e não com menor certeza que de fé católica. Os etíopes, de que fala o texto de Davi, não são todos os pretos universalmente, porque muitos deles são gentios nas suas terras; mas fala somente daqueles de que eu também falo, que são os que por mercê de Deus e de sua Santíssima Mãe, por meio da fé e conhecimento de Cristo, e por virtude do batismo são cristãos. Assim o notou o mesmo profeta no mesmo texto: Memor ero Rahab et Babylonis scientium me, et populus Aethyopum, hi fuerunt illic (SI. 86, 4). - Naquele scientium me está a diferença de uns a outros. E por quê, ou como? Porque todos os que têm a fé e conhecimento de Cristo, e são cristãos, são membros de Cristo, e os que são membros de Cristo não podem deixar de ser filhos da mesma Mãe, de que nasceu Cristo: De qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.
Que sejam verdadeiramente membros de Cristo, é proposição expressa de S. Paulo, não menos que em três lugares. Deixo os dois, e só repito o do capítulo doze aos Coríntios: Sicut enim corpus unum est, et membra habet multa, omnia autem membra corporis, cum sint multa, unum tamen corpus sunt: ita et Christus. Etenim in uno Spiritu omnes nos in unum corpus baptizati sumus. - Assim como o corpo tem muitos membros, e, sendo os membros muitos, o corpo é um só, assim - diz S. Paulo - sendo Cristo um, e os cristãos muitos, de Cristo e dos cristãos se compõe um só corpo, porque todos os cristãos, por virtude da fé e do batismo, são membros de Cristo. - E por que não cuidassem, os que são fiéis e senhores, que os pretos, por terem sido gentios e serem cativos, são de inferior condição, acrescenta o mesmo S. Paulo, que isto tanto se entende dos hebreus, que eram os fiéis, como dos gentios, e tanto dos cativos e dos escravos, como dos livres e dos senhores: Etenim omnes in unum corpus baptizati sumus, sive Judaei, sive gentiles, sive servi, sive liberi. - E como todos os cristãos, posto que fossem gentios e sejam escravos, pela fé e batismo estão incorporados em Cristo, e são membros de Cristo, por isso a Virgem Maria, Mãe de Cristo, é também Mãe sua, porque não seria Mãe de todo Cristo se não fosse Mãe de todos seus membros. Excelentemente Guilhelmo Abade: In uno Salvatore omnium Jesu, plurimos Maria peperit ad salutem. Eo ipso quod mater est capitis, multorum membrorum mater est. Mater Christi Mater est membrorum Christi, quia caput et corpus unus est Christus.
Não se poderá dizer com melhores palavras, nem mais próprias, mas eu quero que no-lo diga com as suas, e nos feche todo este discurso da Escritura Sagrada. Quando Nicodemos de mestre da lei se fez discípulo de Cristo, disse-lhe o Senhor três coisas notá-veis. A primeira, que para ele, Nicodemos, e qualquer outro se salvar, era necessário nascer de novo: Nisi quis renatus fueri denuo, non potest videre regnum Dei. - A segunda, que ninguém sobe ao céu, senão quem desceu do céu: Nemo ascendit in caelum, nisi qui descendit de caelo: A terceira, que para isto se conseguir, havia de morrer em uma cruz o mesmo Cristo: Oportet exaltari Filium hominis. - Se o texto se fizera para o nosso caso, não pudera vir mais medido com todas suas circunstâncias. Quanto à primeira, replicou Nicodemus, dizendo: Quomodo potest homo nasci,cum sit senex? Numquid potest in ventrem matris suae iterato introire et renasci (Jo. 3,4)? Como é possível que um homem velho, como eu sou, haja de nascer de novo? Porventura há de tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer outra vez? - Pareceu-lhe ao doutor que esta instância era muito forte; mas o divino Mestre lhe ensinou que este segundo e novo nascimento era por virtude do batismo, sem o qual ninguém se pode salvar: Nisi quis renatus fuerit ex aqua, et Spiritu Sancto,non potest introire in regnum Dei. E quanto à mãe, de que haviam de tornar a nascer os que assim fossem regenerados, acrescentou o mesmo Senhor que essa mãe era a mesma Virgem Maria, Mãe sua. Isto querem dizer as segundas palavras de Cristo, posto que o não pareça, nem até agora se tenha reparado nelas. Quando o Senhor disse que ninguém sobe ao céu senão quem desceu do céu juntamente declarou que este que desceu do céu era o mesmo Cristo, filho da Virgem: Nemo ascendit in caelum, nisi qui descendit de caelo, Filius hominis, qui est in caelo. -Pois, porque Cristo desceu do céu, por isso todos os que sobem ao céu desceram também do céu? Sim. Porque ninguém pode subir ao céu, senão incorporando-se com Cristo, como todos nos incorporamos com ele, e nos fazemos membros do mesmo Cristo por meio da Fé e do Batismo; donde se seguem duas coisas: a primeira, que assim como ele desceu do céu, assim nós, por sermos membros seus, também descemos nele e com ele: Nemo ascendit in caelo nisi qui descendit de caelo. - A segunda, que assim como ele desceu do céu, fazendo-se Filho da Virgem Maria: Filius hominis, qui est in caelo - assim nós também ficamos sendo filhos da mesma Virgem, porque somos membros verdadeiros do verdadeiro Filho que dela nasceu; e, finalmente, porque este segundo e novo nascimento não foi o de Belém, senão o de Jerusalém, nem o do presépio, senão o do Calvário, por isso conclui o Senhor que para este segundo nascimento se conseguir, era necessário que ele morresse na cruz: Oportet exaltari Filium hominis. - Vejam agora os pretos se por todos os títulos ou circunstâncias de etíopes, de batizados, de nascidos com segundo nascimento, de nascidos no Calvário, e nascidas não de outra Mãe, senão da mesma Mãe de Jesus, se verifica também deles, como membros de Cristo, o nascimento com que o mesmo Cristo segunda vez nasceu dc Maria: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.

 
VI
Parece-me que tenho provado os três nascimentos que prometi. E, posto que todos três sejam mui conformes às circunstâncias do tempo, o de Cristo, porque continuamos a oitava do seu nascimento, o de S. João, porque estamos no seu próprio dia, e o dos pretos, porque celebramos com eles a devoção da Virgem Santíssima, Mãe de Cristo, Mãe de S. João, e Mãe sua, sobre estas três grandes propriedades temos ainda outras três muito mais próprias: e quais são? Que unidos estes três nascimentos em um mesmo intento, todos e cada um deles se ordenam a declarar e persuadir a devoção do Rosário, e do Rosário particularmente dos pretos, e dos pretos em particular que trabalham neste e nos outros engenhos. Não são estas as circunstâncias mais individuais do lugar, das pessoas, e da festa e devoção que celebramos? Pois, todas elas nascem daqueles três nascimentos. O novo nascimento dos mesmos pretos, como filhos da Mãe de Deus, lhes mostra a obrigação que têm de servir, venerar e invocar a mesma Senhora com o seu Rosário. O novo nascimento de Cristo os persuade a que, sem embargo do contínuo e grande trabalho em que estão ocupados, nem por isso se esqueçam da soberana Mãe sua, e de lhe rezar o Rosário, ao menos parte, quando não possam todo. E, finalmente, o novo nascimento de S. João lhes ensina quais são, entre os mistérios do Rosário, os que mais pertencem ao seu estado, e com que devem aliviar, santificar e oferecer à Senhora o seu mesmo trabalho. Este é o fim de quanto tenho dito e me resta dizer, e este também o fruto de que mais se serve e agrada a Virgem do Rosário, e com que haverá por bem festejado o seu dia. E porque agora falo mais particularmente com os pretos, agora lhes peço mais particular atenção.
Começando, pois, pelas obrigações que nascem do vosso novo e tão alto nascimento, a primeira e maior de todas é que deveis dar infinitas graças a Deus por vos ter dado conhecimento dc si, e por vos ter tirado de vossas terras, onde vossos pais e vós vivíeis como gentios, e vos ter trazidos a esta, onde, instruídos na fé, vivais como cristãos, e vos salveis. Fez Deus tanto caso de vós, e disto mesmo que vos digo, que mil anos antes de vir ao mundo, o mandou escrever nos seus livros, que são as Escrituras Sagradas. - Virá tempo, diz Davi, em que os etíopes - que sois vós - deixada a gentilidade e idolatria, se hão de ajoelhar diante do verdadeiro Deus: Coram illo procident Aethyopes - e que farão assim ajoelhados? Não baterão as palmas como costumam, mas, fazendo oração, levantarão as mãos ao mesmo Deus: Aethyopia praeveniet manus ejus Deo. - E quando se cumpriram estas duas profecias, uma do Salmo setenta e um, e outra do salmo sessenta e sete? Cumpriram-se principalmente depois que os portugue-ses conquistaram a Etiópia ocidental, e estão se cumprindo hoje, mais e melhor que em nenhuma outra parte do mundo nesta da América, aonde trazidos os mesmos etíopes em tão inumerável número, todos com os joelhos em terra, e com as mãos levantadas ao céu, crêem, confessam e adoram no Rosário da Senhora todos os mistérios da Encarnação, Morte e Ressurreição do Criador e Redentor do mundo, como verdadeiro Filho de Deus e da Virgem Maria. Assim como Deus na lei da natureza escolheu a Abraão, e na da escrita a Moisés, e na da graça a Saulo, não pelas serviços que lhe tivessem feito, mas pelos que depois lhe haviam de fazer, assim a Mãe de Deus, antevendo esta vossa fé, esta vossa piedade e esta vossa devoção, vos escolheu de entre tantos outros de tantas e tão diferentes nações, e vos trouxe ao grêmio da Igreja, para que lá, como vossos pais, vos não perdêsseis; e cá, como filhos seus, vos salvásseis. Este é o maior e mais universal milagre de quantos faz cada dia, e tem feito por seus devotos a Senhora do Rosário.
Falando o texto sagrado dos filhos de Coré, que, como já dissemos, são os filhos da Senhora nascidos no Calvário, diz que, perecendo seu pai, eles não pereceram, e que isto foi um grande milagre: Factum est grande miraculum, ut, Core pereunte, filiiillis non perirent. -Não perecerem nem morrerem os filhos quando perecem e morrem os pais é coisa muito natural, antes é lei ordinária da mesma natureza, porque, se com os pais morrerem juntamente os filhos, acabar-se-ia o mundo. Como diz logo o texto sagrado que não morrerem e perecerem os filhos de Coré, quando morreu e pereceu seu pai, não só foi milagre, senão um grande milagre: Factum est grande miraculum? - Ouvi o caso todo, e logo vereis em que consistiu o milagre e sua grandeza. Caminhando os filhos de Israel pelo deserto em demanda da Terra de Promissão, rebelaram-se contra Deus três cabeças de grandes famílias, Datã, Abiron e Coré, e querendo a divina justiça castigar exemplarmente a atrocidade deste delito, abriu-se subitamente a terra, tragou vivos aos três delinqüentes, e em um momento todos três, com portento nunca visto, foram sepultados no inferno. Houve porém neste caso uma diferença ou exceção muito notável, e foi que com Datã e Abiron pereceram juntamente, e foram também tragados da terra e sepultados no inferno seus filhos; mas os de Coré não, e este é o que a Escritura chama grande milagre: Factum est grande miraculum, ut Core pereunte, filii illius non perirent. - Abrir-se a terra não foi milagre? Sim, foi. Serem traga-dos vivos os três delinqüentes, não foi outro milagre? Também. Irem todos em corpo e alma ao inferno antes do dia do Juízo, não foi terceiro milagre? Sim, e muito mais estupendo. E, contudo, o milagre que a Escritura Sagrada pondera e chama grande milagre não foi nenhum destes, senão o perecer Coré e não perecerem seus filhos, porque o maior milagre e a mais extraordinária mercê, que Deus pode fazer aos filhos de pais rebeldes ao mesmo Deus, é que quando os pais se condenam, e vão ao inferno, eles não pereçam, e se salvem.
Oh! se a gente preta, tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus e a sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre? Dizei-me: vossos pais, que nasceram nas trevas da gentilidade, e nela vivem e acabam a vida sem lume da fé nem conhecimento de Deus, aonde vão depois da morte? Todos, como credes e confessais, vão ao inferno, e lá estão ardendo e arderão por toda a eternidade. E que, perecendo todos eles, e sendo sepultados no inferno como Coré, vós, que sois seus filhos, vos salveis, e vades ao céu? Vede se é grande milagre da providência e misericórdia divina: Factum est grande miraculum, ut Core pereunte filii illius non perirent. - Os filhos de Datã e Abiron pereceram com seus pais, porque seguiram com eles a mesma rebelião e cegueira; e outro tanto vos poderá suceder a vós. Pelo contrário, os filhos de Coré, perecendo ele, salvaram-se, porque reconheceram, veneraram e obedeceram a Deus; e esta é a singular felicidade do vosso estado, verdadeiramente milagroso.
Só resta mostrar-vos que este grande milagre, como dizia, é milagre do Rosário, e que esta eleição e diferença tão notável a deveis à Virgem Santíssima, vossa Mãe, e por ser Mãe vossa. Isac, filho de Abraão - de quem vossos antepassados tomaram por honra a divisa da circuncisão, que ainda conservam, e do qual muitos de vós descendeis por via de Ismael, meio-irmão do mesmo Isac - este Isac, digo, tinha dois filhos, um chamado Jacó, que levou a bênção do céu, e outro chamado Esaú, que perdeu a mesma bênção. Tudo isto sucedeu em um mesma dia, em que Esaú andava pelos matos armado de arco e frechas, como andam vossos pais por essas brenhas da Etiópia; e, pelo contrário, Jacó estava em casa de seu pai e de sua mãe, como vós hoje estais na casa de Deus e da Virgem Maria. E por que levou a bênção Jacó, e a perdeu Esaú? Porque concorreram para a felicidade de Jacó duas coisas, ou duas causas, que a Esaú faltaram ambas. A primeira foi porque Rebeca - que era o nome da mãe - não amava a Esaú, senão a Jacó, e fez grandes diligências, e empregou toda a sua indústria em que ele levasse a bênção. A segunda, porque, estando duvidoso o pai se lhe daria a bênção ou não, sentiu que os vestidos de Jacó lhe cheiravam a rosas e flores, e tanto que sentiu este cheiro e esta fragrância logo lhe deitou a bênção. Assim o nota expressamente o texto: Statimque ut sensit vestimentorum illius fragrantiam, benedicens illi, ait: Ecce odor filii mei, sicut odor agri pleni, cui benedixit Dominus. Det tibi Deus de rore caeli, etc. - Uma e outra circunstância, assim da parte da mãe como do pai, foram admiráveis, e por isso misteriosas. Da parte da mãe que, sendo Jacó e Esaú irmãos, amasse com tanta diferença a Jacó; e da parte do pai que um acidente que parecia tão leve, como o cheiro das flores, lhe tirasse toda a dúvida, e fosse o última motivo de lhe dar a bênção. Mas assim havia de ser, para que o mistério se cumprisse com toda a propriedade nas figuras e ações que o representavam. Isac significava a Deus, Rebeca a Virgem Mãe, Jacó os seus filhos escolhidos, que sois vós, e Esaú os reprovados, que são os que, sendo do vosso mesmo sangue e da vossa mesma cor, não alcançaram a bênção que vós alcançastes. Para que entendais que toda esta graça do céu a deveis referir a duas causas: a primeira, ao amor e piedade da Virgem Santíssima, vossa Mãe; a segunda, à devoção do seu Rosário, que é o cheiro das rosas e flores, que tanto enlevam e agradam a Deus.
Dos sacrifícios antigos, quando Deus os aceitava, diz a Sagrada Escritura que lhe agradava muito o cheiro e suavidade deles: Odoratus est Dominus odorem suavitatis - E a razão era porque naqueles sacrifícios se representavam os mistérios da vida e da morte de seu benditíssimo Filho. E como na devoção do Rosário se contém a memória e consideração dos mesmos mistérios, este é o cheiro e fragrância que tanto nele agrada, e tão aceito é a Deus. Em vós, antes de serdes cristãos, somente era futuro este cheiro das flores do Rosário, que hoje é presente, como também eram futuros naquele tempo os mistérios de Cristo; mas, assim como o merecimento destes mistérios antes de serem, somente porque haviam de ser davam eficácia àqueles sacrifícios, assim a vossa devoção do Rosário futura, e quando ainda não era, só porque Deus e sua Mãe a anteviram, com a aceitação e agrado que dela recebem, vos preferiram e antepuseram aos demais das vossas nações, e vos tiveram por dignos da bênção que hoje gozais, tanto maior e melhor que a de Jacó quanto vai da terra ao céu. Para que todos conheçais o motivo principal da vossa felicidade, e a obrigação em que ela vos tem posto de não faltar a Deus e a sua Santíssima Mãe com este quotidiano tributo da vossa devoção.

VII
Estou vendo, porém, que o vosso contínuo trabalho e exercício pode parecer ou servir de escusa ao descuido dos menos devotos. Direis que estais trabalhando de dia e de noite em um engenho, e que as tarefas multiplicadas umas sobre outras - que talvez entram e se penetram com os dias santos - vos não deixam tempo nem lugar para rezar o Rosário. Mas aqui entra o novo nascimento de Cristo, segunda vez nascido no Calvário, para com seu divino exemplo e imitação refutar a fraqueza desta vossa desculpa, e vos ensinar como no meio do maior trabalho vos não haveis de esquecer da devoção de sua Mãe, pois o é também vossa, oferecendo-lhe ao menos alguma parte, quando comodamente não possa ser toda. Davi - aquele santo rei, que também teve netos na Etiópia, filhos de seu filho Salomão e da rainha Sabá - entre os salmos que compôs, foram três particulares, aos quais deu por título Pro torcularibus, que em frase do Brasil quer dizer, para os engenhos. Este nome torcularia, universalmente tomado, significa todos aqueles lugares e instrumentos em que se espreme e tira o sumo dos frutos, como em Europa o vinho e o azeite, que lá se chamam lagares; e porque estes, em que no Brasil se faz o mesmo às canas doces, e se espreme, coze e endurece o sumo delas, têm maior e mais engenhosa fábrica se chamaram vulgarmente engenhos. Se perguntarmos, pois, qual foi o fim e intento de Davi em compor e intitular aqueles salmos nomeadamente para estas oficinas, respondem os doutores hebreus, e com eles Paulo Burgense, que o intento que teve o santo rei, e fez se praticasse em todo o povo de Israel, foi que os trabalhadores das mesmas oficinas ajuntassem o trabalho com a oração, e em lugar de outros cantares, com que se costumavam aliviar, cantassem hinos e salmos; e, pois, recolhiam e aproveitavam os frutos da terra, não fossem eles estéreis, e louvassem ao Criador que os dá. Notável exemplo por certo, e de suma edificação, que entre os grandes negócios e governo da monarquia tivesse um rei estes cuidados! E que confusão, pelo contrário, será para os que se chamam senhores de engenho, se atentos somente aos interesses temporais, que se adquirem com este desumano trabalho, dos trabalhadores seus escravos, e das almas daqueles miseráveis corpos, tiverem tão pouco cuidado, que não tratem de que louvem e sirvam a Deus, mas nem ainda de que o conheçam?
Tornando aos salmos compostos para os engenhos - que depois veremos por que foram três - declara Davi no título do último quem sejam os operários destas trabalhosas oficinas, e diz que são os filhos de Coré: Pro torcularibus fillis Core (SI. 83, 1). - Segundo a propriedade da história, já dissemos que os filhos de Coré são os pretos, filhos da Virgem Santíssima, e devotos do seu Rosário. Segundo a significação do nome, porque Coré na língua hebraica significa Calvário, diz Hugo Cardeal que são os imitadores da Cruz e Paixão de Cristo crucificado: Filiis Core, id est, imitatoribus in loco Calvariae crucifixi. - Não se pudera nem melhor nem mais altamente descrever que coisa é ser escravo em um engenho do Brasil. Não há trabalho nem gênero de vida no mundo mais parecido à Cruz e Paixão de Cristo que o vosso em um destes engenhos. O fortunati nimium sua si bona norint! Bem-aventurados vós, se soubéreis conhecer a fortuna do vosso estado, e, com a conformidade e imitação de tão alta e divina semelhança, aproveitar e santificar o trabalho!
Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado:Imitatoribus Christi crucifixi - porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós mal-tratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio. Só lhe faltava a cruz para a inteira e perfeita semelhança o nome de engenho: mas este mesmo lhe deu Cristo, não com outro, senão com o próprio vocábulo. Torcular se chama o vosso engenho, ou a vossa cruz, e a de Cristo, por boca do mesmo Cristo, se chamou também torcular: Torcular calcavi solus. - Em todas as invenções e instrumentos de trabalho parece que não achou o Senhor outro que mais parecido fosse com o seu que o vosso. A propriedade e energia desta comparação é porque no instrumento da cruz, e na oficina de toda a Paixão, assim como nas outras em que se espreme o sumo dos frutos, assim foi espremido todo o sangue da humanidade sagrada: Eo quod sanguis ejus ibi fuit expressus, sicut sanguis uvae in torculari - diz Lirano - et hoc in spineae coronae impositione, in flagellatione, in pedum, et manuum confiscione, et in lateris apertione. - E se então se queixava o Senhor de padecer só: Torcular calcovi solus - e de não haver nenhum dos gentios que o acompanhasse em suas penas: Et de gentibus non est vir mecum  - vede vós quanto estimará agora que os que ontem foram gentios, conformando-se com a vontade de Deus na sua sorte, lhe façam por imitação tão boa companhia!
Mas, para que esta primeira parte da imitação dos trabalhos da cruz o seja também nos afetos - que é a segunda e principal - assim como no meio dos seus trabalhos e tormentos se não esqueceu o Senhor de sua piedosíssima Mãe, encomendando-a ao discípulo amado, assim vos não haveis vós de esquecer da mesma Senhora, encomendando-vos muito particularmente na sua memória, e oferecendo-lhe a vossa. Depois de Cristo na cruz dar o reino do céu ao Bom Ladrão, então falou com sua Mãe, e parece que este, e não aquele, havia de ser o seu primeiro cuidado; mas seguiu o Senhor esta ordem, diz Santo Ambrósio, para mostrar, segundo as mesmas leis da natureza, que mais fazia em ter da própria Mãe esta lembrança que em dar a um estranho o reino: Pluris putans quad pietatis officia dividebat, quam quod regnum caeleste donabat. - Ao ladrão deu Cristo menos do que lhe pediu, e à Mãe deu muito mais do que tinha dado ao ladrão, porque o ladrão pediu-lhe a memória, e deu-lhe o reino, e à Mãe deu-lhe muito mais que o reino, porque lhe deu a memória. Esta memória haveis de oferecer à Senhora em meio dos vossos trabalhos, à imitação de seu Filho, e não duvideis ou cuideis que lhe seja menos aceita a vossa, antes, em certo modo, mais. Porquê? Porque nas Ave-Marias do vosso Rosário a fazeis com palavras de maior consolação do que as que lhe disse o mesmo Filho, conformando-se com o estado presente. O Filho chamou-lhe mulher, e vós chamar-lhe-eis a bendita entre todas as mulheres: o Filho não lhe deu nome de mãe, e vós a invocareis cento e cinqüenta vezes com o nome de Santa Maria, Mãe de Deus. Oh! quão adoçada ficará a dureza, e quão enobrecida a vileza dos vossos trabalhos na harmonia destas vozes do céu, e quão preciosas serão diante de Deus as vossas penas e aflições, se juntamente lhas oferecerdes em união das que a Virgem Mãe sua padeceu ao pé da cruz!
E por que a continuação do vosso mesmo trabalho vos não pareça bastante escusa para faltardes com vossas orações a esta pensão de cada dia, adverti que se o vosso Rosário consta de três partes estando Cristo vivo na Cruz somente três horas, nessas três horas orou três vezes. Pois, se Cristo ora três vezes em três horas, sendo tão insofríveis os trabalhos da sua cruz, vós, por grandes que sejam os vossos, por que não orareis três vezes em vinte e quatro horas? Dir-me-eis que as orações que fez Cristo na cruz foram muito breves. Mas nisso mesmo vos quis dar exemplo, e vos deixou uma grande consolação. Para que quando, ou apertados do tempo, ou oprimidos do trabalho não puderdes rezar o Rosário inteiro, não falteis ao menos em rezar parte, consolando-vos com saber que nem por isso as vossas orações abreviadas serão menos aceitas a Deus e à sua Mãe, assim como o foram as de Cristo a seu Eterno Pai.
Agora acabareis de entender por que razão os salmos que Davi compôs para os que trabalham nos engenhos foram somente três. Lede-os, ou leiam-nos por vós os que os entendem, e acharão que só três se intitulam Pro torcularibus. E por que três, nem mais nem menos? Porque em três partes, nem mais nem menos, dividiu Davi o seu Saltério, e a Senhora o seu Rosário. O que hoje chamamos Rosário, antes que as Ave-Marias se convertessem milagrosamente em rosas, chamava-se o Saltério da Virgem, porque assim como o Saltério era composto de cento e cinqüenta salmos, assim o Rosário se compõe de cento e cinqüenta saudações angélicas. Que fez pois Davi, como rei pio e como profeta? Como rei pio, que atendia ao bem presente do seu reino, vendo que os trabalhadores dos lagares não podiam rezar o Saltério inteiro, e tão comprido como é, recopilou e abreviou o mesmo Saltério, e reduziu as três partes, de que é composto, aos três salmos que intitulou Pro torcularibus. E como profeta que via os tempos futuros, e o Rosário que havia de compor a Mãe do que se havia de chamar Filho de Davi, à imitação do seu Saltério, introduziu no mesmo Saltério, já abreviado e reduzido a três salmos, os três mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos em que está repartido o Rosário. Assim foi, e assim se vê claramente nos mesmos três salmos. Porque o primeiro - que é o salmo oito - tendo por expositor a São Paulo, contém os mistérios da Encarnação e infância do Salvador: Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem. - O segundo - que é o salmo oitenta - contém os mistérios da Cruz e da Redenção, representados na do Egito: Ego sum Dominus Deus tuus, qui eduxi te de terra Aegypti. E o terceiro -que é o salmo oitenta e três - contém os mistérios da Glória e da Ascensão: Beatus vir cujus est auxilium abs te, ascensiones in corde suo disposuit in valle lachrymarum.
Assim, pois, como os trabalhadores hebreus - que eram os fiéis daquele tempo - no exercício dos seus lagares meditavam e cantavam o Saltério de Davi recopilado naqueles três salmos, porque não podiam todo, ao mesmo modo vós, quando não possais rezar todo o Rosário da Senhora, ao menos com parte das três partes em que ele se divide haveis de aliviar e santificar o peso do vosso trabalho na memória e louvores dos seus mistérios. E este foi finalmente o exemplo e exemplar que vos deixou Cristo nas três breves orações da sua Cruz. Porque, se bem advertirdes, em todas três, pela mesma ordem do Rosário, se contêm os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. Os gloriosos, na terceira, em que encomendou sua alma nas mãos do Padre, partindo-se deste mundo para a glória: Pater, in manus tuas commendo spiritum meum. - Os dolorosos, na segunda, em que amorosamente queixoso publicou a altas vozes o excesso das suas dores: Deus meus, Deus meus, ut quiddereliquisti me? E os gozosos, rogando pelos mesmos que o estavam pregando na Cruz, e alegando que não sabiam o que faziam: Non enim sciunt quid faciunt - porque eles o crucificavam para o atormentarem, e ele se gozava muito de que o crucificassem, como declarou São Paulo: Proposito sibi gaudio, sustinuit crucem.

 
VIII
Resta o último e excelente documento de São João, também nova e segunda vez nascido ao pé da cruz: e qual é este documento? Que entre todos os mistérios do Rosário haveis de ser mais particularmente devotos dos que são mais próprios do vosso estado, da vossa vida e da vossa fortuna, que são os mistérios dolorosos. A todos os mistérios dolorosos - e não assim aos outros - se achou presente São João. Assistiu ao do Horto com os dois discípulos; assistiu ao dos açoites com a Virgem Santíssima no Pretório de Pilatos; assistiu do mesmo modo e no mesmo lugar à coroação de espinhos; seguiu ao Senhor com a Cruz às costas até ao Monte Calvário; e no mesmo Calvário se não apartou do seu lado até expirar e ser levado à sepultura. Estes foram os mistérios próprios do Discípulo amado, que, como a dor se mede pelo amor, a ele competiam mais os dolorosos. Estes foram os seus, e estes devem ser os vossos, e não só por devoção ou eleição, nem só por condição e semelhança da vossa cruz, mas por direito hereditário, desde o primeiro etíope ou preto que conheceu a Cristo e se batizou. É caso muito digno de que o saibais.
Apareceu um anjo a São Felipe diácono, e disse-lhe que se fosse pôr na estrada de Gaza. Posto na estrada, tornou-lhe a aparecer, e disse-lhe que se chegasse a uma carroça que por ali passava. Chegou, e viu que ia na carroça um homem preto - que era criado da rainha de Etiópia - e ouviu que ia lendo pelo profeta Isaías. O lugar em que estava era aquele famoso texto do capítulo cinqüenta e três, em que o profeta descreve mais claramente que nenhum outro a Morte, Paixão e Paciência de Cristo: Tanquam ovis ad occisionem ductus est: et sicut agnus coram tondente se, sine voce, sic non aperuit os suum, etc. - Perguntou-lhe o diácono se entendia o que estava lendo, e como respondesse que não, e lhe pedisse que lho declarasse, foi tal a declaração que, chegando depois ambos a um rio, o etíope pediu ao santo que o batizasse. E este foi o primeiro gentio depois de Cornélio Romano, e o primeiro preto cristão que houve no mundo. Tudo nesta história, que é dos Atos dos Apóstolos, referida por São Lucas, são mistérios. Mistério foi o primeiro aviso do anjo ao santo diácono, e mistério o segundo; mistério que um gentio fosse lendo pela Sagrada Escritura, e mistério que caminhando a fosse lendo; mistério que o profeta que lia fosse Isaías, e mistério sobre todos misterioso que o lugar fosse da Paixão e Paciência de Cristo, porque, para dar ocasião ao diácono de pregar a fé a um gentio, bastava que fosse qualquer outro. Pois, porque ordenou Deus que fosse sinaladamente aquele lugar, em que se descrevia a sua paixão e os tormentos com que havia de ser maltratado, e a paciência, sujeição e silêncio com que os havia de suportar? Sem dúvida porque neste primeiro etíope tão antecipadamente convertido se representavam todos os homens da sua cor e da sua nação que depois se converteram. Assim o dizem São Jerônimo e Santo Agostinho, e aprovam com texto de Davi: Aethiopia praeveniet manus ejus Deo. E como a natureza gerou os pretos da mesma cor da sua fortuna: Infelix genus hominum, et ad servitutem natum - quis Deus que nascessem à fé debaixo do signo da sua Paixão e que ela, assim como lhes havia de ser o exemplo para a paciência, lhes fosse também o alívio para o trabalho. Enfim, que de todos os mistérios da Vida, Morte e Ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos pretos, e como por herança, são os dolorosos.
Destes devem ser mais devotos, e nestes se devem mais exercitar, acompanhando a Cristo neles, como fez São João na sua Cruz. Mas, assim como entre todos os mistérios do Rosário estes são os que mais propriamente pertencem aos pretos, assim entre todos os pretos os que mais particularmente os devem imitar e meditar são os que servem e trabalham nos engenhos, pela semelhança e rigor do mesmo trabalho. Encarecendo o mesmo Redentor o muito que padeceu em sua sagrada Paixão, que são os mistérios dolorosos, compara as suas dores às penas do inferno: Dolores inferni circumdederunt me. - E que coisa há na confusão deste mundo mais semelhante ao inferno que qualquer destes vossos engenhos, e tanto mais quanto de maior fábrica? Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os cachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias, da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança de inferno. Mas, se entre todo esse ruído, as vozes que se ouvirem forem as do Rosário, orando e meditando os mistérios dolorosos, todo esse inferno se converterá em paraíso, o ruído em harmonia celestial, e os homens, posto que pretos, em anjos.
Grande texto de Davi. Estava vendo Davi essas mesmas fornalhas do inferno e essas mesmas caldeiras ferventes, e, profetizando literalmente dos que viu atados a elas, escreveu aquelas dificultosas palavras: Si dormiatis inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, et posteriora dorsi ejus in pallore auri. Cleros quer dizer lebetes, ou, como verte com maior propriedade Vatablo: Si dormiatis inter medias caldarias, vasaque plena fulligine. - Diz, pois, o profeta: - Se passardes as noites entre as caldeiras, e entre esses grandes vasos fuliginosos, e tisnados com e fumo e labaredas das fornalhas, que haveis de fazer, ou que vos há de suceder? - Agora entra o dificultoso das palavras: Pennae columbaedeargentatae, et posteriora dorsi ejus in pallore auri. -Penas e asas de pomba, prateadas por uma parte e douradas por outra. - E que tem que ver a pomba com o triste escravo e negro etíope, que entre todas as aves só é parecido ao corvo? Que tem que ver a prata e o ouro com o cobre da caldeira e o ferro da corrente a que está atado? Que tem que ver a liberdade de uma ave com penas e asas para voar com a prisão do que se não pode bolir dali por meses e anos, e talvez por toda a vida? Aqui vereis quais são os poderes e transformações que obra o Rosário nos que oram e meditam os mistérios dolorosos.
A pomba na Sagrada Escritura, como consta de infinitos lugares, não só é símbolo da oração e meditação absolutamente, senão dos que oram e meditam em casos dolorosos; por isso el-rei Ezequias nas suas dores dizia: Meditabor ut columba. - E a razão desta propriedade, e semelhança é porque a pomba com os seus arrulhos não canta como as outras aves, mas geme. Quer dizer pois o profeta, e diz admiravelmente, falando convosco na mais miserável circunstância deste inferno da terra: Si dormiatis inter medias caldarias, vasaque plena fulligine - se não só de dia, mas de noite vos virdes atados a essas caldeiras com uma forte cadeia, que só vos deixe livres as mãos para o trabalho, e não os pés para dar um passo, nem por isso vos desconsoleis e desanimeis: orai e meditai os mistérios dolorosos, acompanhando a Cristo neles, como São João, e nessa triste servidão de miserável escravo tereis o que eu desejava sendo rei, quando dizia: Quis dabit mihi pennas sicut columbae, et volabo, et requiescam (SI. 54, 7): Oh! quem me dera asas como de pomba para voar e descansar? - E estas são as mesmas que eu vos prometo no meio desta miséria: Pennae columbae deargentatae, et posteriora ejus in pallore ouri - porque é tal a virtude dos mistérios dolorosos da Paixão de Cristo para os que orando os meditam gemendo como pomba, que o ferro se lhes converte em prata, o cobre em ouro, a prisão em liberdade, o trabalho em descanso, o inferno em paraíso, e os mesmos homens, posto que pretos, em anjos.
Dizei-me que coisa é um anjo? Os anjos não são outra coisa senão homens com asas, e esta figura não lha deram os pintores, senão o mesmo Deus, que assim os mostrou a Isaías e assim os mandou esculpir no Templo. Pois, essas são as asas prateadas e douradas com que desse vosso inferno vos viu Davi voar ao céu para cantar o Rosário no mesmo coro com os anjos. Nem vos meta em desconfiança a vossa cor nem as vossas fornalhas, porque na fornalha de Babilônia, onde o mestre da capela era Filho de Deus, no mesmo coro meteu as noites com os dias: Benedicite, noctes et dies, Domino. Antes vos digo - e notai muito isto para vossa consolação - que se no céu não entraram vossas vozes com as dos anjos o Rosário que lá se canta não seria perfeito. Consta de muitas revelações e visões de santos que os anjos no céu também rezam ou cantam o Rosário, por sinal que ao nome de Maria fazem uma profunda inclinação, e ao nome de Jesus se ajoelham todos; e digo que, entrando vós no mesmo coro, será o Rosário dos anjos mais perfeito do que é sem vós, porque a perfeição do Rosário consiste em se conformar quem o reza com os mistérios que nele meditam, gozando-se com os gozosos, doendo-se com os dolorosos e gloriando-se com os gloriosos. E posto que os anjos nos gozosos se podem gozar, e nos gloriosos se podem gloriar, nos dolorosos não se podem doer, porque o seu estado é incapaz de dor. Isto, porém, que eles não podem fazer no céu, fazeis vós na terra, se no meio dos trabalhos que padeceis, vos doeis mais das penas de Cristo que das vossas. Assim que do Rosário dos anjos, e do vosso, ou repartidos em dois coros, ou unidos em um só, se inteira a perfeição, ou se aperfeiçoa a harmonia dos mistérios do Rosário.
Os dolorosos - ouçam-me agora todos - os dolorosos são os que vos pertencem a vós, como os gozosos aos que, devendo-vos tratar como irmãos, se chamam vossos senhores. Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta: Sic vos non vobis mellificatis, apes. - O mesmo passa nas vossas colmeias. As abelhas fabricam o mel sim, mas não para si. E, posto que os que o logram é com tão diferente fortuna da vossa, se vós, porém, vos souberdes aproveitar dela, e conformá-la com o exemplo e paciência de Cristo, eu vos prometo primeiramente que esses mesmos trabalhos vos sejam muito doces, como foram ao mesmo Senhor: Dulce lignum, dulces clavos, dulcia ferens pondera - e que depois - que é o que só importa - assim como agora, imitando a São João, sois companheiros de Cristo nos mistérios dolorosos de sua cruz, assim o sereis nos gloriosos de sua Ressurreição e Ascensão. Não é promessa minha, senão de São Paulo, e texto expresso de fé: Haeredes quidem Dei, cohaeredes outem Christi:si tamen compatimur ut et conglorificemur. - Assim como Deus vos fez herdeiros de suas penas, assim o sereis também de suas glórias, com condição, porém, que não só padeçais o que padeceis, senão que padeçais com o mesmo Senhor, que isso quer dizer com patimur. Não basta só padecer, mas é necessário padecer com Cristo, como São João.
Oh! como quisera e fora justo que também vossos senhores consideraram bem aquela conseqüência: Si tamen compatimur ut et conglorificemur. - Todos querem ir à glória e ser glorificados com Cristo, mas não querem padecer nem ter parte na cruz com Cristo. Não é isto o que nos ensinou a Senhora do Rosário na ordem e disposição do mesmo Rosário. Depois dos mistérios gozosos pôs os dolorosos, e depois dos dolorosos os gloriosos. Por quê? Porque os gostos desta vida têm por conseqüência as penas, e as penas, pelo contrário, as glórias. E se esta é a ordem que Deus guardou com seu Filho e com sua Mãe, vejam os demais o que fará com eles. Mais inveja devem ter vossos senhores às vossas penas do que vós aos seus gostos, a que servis com tanto trabalho. Imitai, pois, ao Filho e à Mãe de Deus, e acompanhai-os com São João nos seus mistérios dolorosos, como próprios da vossa condição e da vossa fortuna, baixa e penosa nesta vida, mas alta e gloriosa na outra. No céu cantareis os mistérios gozosos e gloriosos com os anjos, e lá vos gloriareis de ter suprido com grande merecimento o que eles não podem, no contínuo exercício dos dolorosos.

 
IX
Estes são, devotos do Rosário, os três motivos que nascem dos três nascimentos que vistes, os quais, se forem tão bem exercitados, como são bem nascidos, nem podeis desejar maior honra nos vossos desprezos, nem maior alívio nos vossos trabalhos, nem maior dita e ventura na vossa fortuna. A mesma Mãe do Filho de Deus e de São João é Mãe vossa. E, pois, estes três filhos já nascidos lhe nasceram segunda vez ao pé da cruz, não falteis na vossa, posto que tão pesada, nem à imitação de tão honrados irmãos, nem às obrigações de tão soberana Mãe. Para que assim como a Senhora se gloria de ser Mãe de São João, assim tenha também muito de que se gloriar em ser Mãe de todos os pretos, tão particularmente seus devotos. Desta maneira se multiplicou por vários modos o segundo nascimento de seu unigênito Filho, e desta maneira se verifica em eterno louvor de seu Santíssimo Nome, que o mesmo Jesus que se chama Cristo, não só uma, senão três vezes nasceu de Maria: Maria, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus.


Fonte: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/documentos/?action=midias&id=144104


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